CARTA DE REPÚDIO: Novela da Globo reforça estigma sobre doença mental


CARTA DE REPÚDIO:

A FEDERAÇÃO NACIONAL DAS ASSOCIAÇÕES EM DEFESA DA SAÚDE MENTAL – FENAEMD vem a público manifestar seu profundo repúdio às cenários apresentadas na Novela, exibida às 21 horas, pela Rede Globo de Televisão, “O Outro Lado do Paraíso”, de autoria de Walcyr Carrasco, que foram ao ar no último dia 21 de novembro. Cenas que contribuem para perpetuar o preconceito e para desinformar a sociedade em relação aos padecentes de doenças mentais graves e aqueles que os cuidam e tratam.

As cenas, além de apresentarem a personagem Clasra sofrendo delírios e alucinações provocados por medicação psiquiátrica, como se um remédio fosse uma droga psicodélica, também mostram os psiquiatras como corruptos (comprados), sequestradores e sádicos, reforçando estereótipos que são altamente prejudiciais dentro do contexto da Saúde Mental e dos tratamentos psiquiátricos, imprescindíveis para salvar e recuperar vidas humanas, como nos casos de surto psicótico e suicídio que vem atingindo de forma alarmante a nossa população.

Na sequência, a personagem é internada de forma irresponsável e desnecessária em uma instituição (médica, chamada de hospício!) e citado que ela nunca mais sairia daquele local. Essa fala, além de ir contra a Lei 10.216/2001 que não permite mais o hospital como equipamento asilar e de moradia, coloca todos os profissionais de saúde que atuam na instituição, ou seja, médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, como coniventes do sequestro. Esse é outro desserviço à população, pois aumenta o medo e, novamente, o preconceito com relação a internação e ao Hospital Psiquiátrico Especializado, um dos importantes mecanismos utilizados para reequilibrar o indivíduo nos momentos de crise e reinseri-lo na sociedade, para a continuidade do tratamento extra-hospitalar.

Outro fato, que demonstra profunda desinformação, é a abordagem de associar a tortura ao procedimento de eletroconvulsoterapia(ECT), técnica utilizada pela psiquiatria, de forma indolor e com anestesia, e que possui comprovação de sua eficiência e eficácia através de diversos estudos científicos, em tratamentos onde outras técnicas não surtiram efeitos.

Toda essa forma de abordar e associar o tratamento em saúde mental, a maus tratos, sequestro, corrupção, mesmo com as licenças literárias das novelas, provocam prejuízos irreparáveis à população, trazendo desinformação e, ainda mais, preconceito que o já existente, a psicofobia.

Não consideramos válido qualquer argumento de que esta seja obra de ficção. A ficção não pode atuar comprometendo o tratamento em saúde mental e causando prejuízos a vidas humanas. Se o Sr. Walcyr Carrasco, que não apenas nesta, mas em outras ocasiões, se mostrou verdadeiro carrasco de doentes mentais, famílias e médicos, mostrasse outras minorias, como negros ou mulheres, em situações que transmitissem preconceito, haveria imensas manifestações e mobilizações por parte da sociedade.

A Globo desmonta toda uma vida de dedicação e orientação por parte dos familiares das pessoas com transtornos mentais que muitas vezes assumem sozinhos o cuidado dos seus familiares, sem qualquer apoio do poder público. Remontar aos anos 70 é direcionar o povo brasileiro no sentido de negar a importância do Psiquiatra, do Hospital Especializado e do papel fundamental da psiquiatria. Tudo isso colabora de forma irresponsável com a negação do tratamento seja medicamentoso, seja de internação nos momentos de crise.

Como representantes legítimos de pacientes e familiares, não ficaremos calados. Faremos ouvir nossa voz por quaisquer meios que nos sejam legítimos. Somos muitos. Muitos mais do que o preconceito do autor e da emissora imaginam.
Diante do exposto, demandamos uma resposta pública da emissora e do autor.


DIREÇÃO DA FENAEMD-SM