O vazio do não ser

É impressionante como as pessoas se sentem velhas. Cada vez mais em conversas aparece a "crise da idade". Esta semana ouvi de duas pessoas. Uma tinha 24 e outra 51. O discurso é sempre o mesmo: estou velha para fazer tal coisa. O que eu fiz da minha vida? O que eu posso fazer se já estou com esta idade?




Pela diferenças de idade e pela semelhança do discurso percebe-se claramente que o problema de verdade não é a idade. Mas o que de fato estas pessoas conseguiram viver. E quando falo em viver, não estou falando da contagem de dias, da quantidade em si. Estou falando da qualidades destes anos que acabam apontando para a verdadeira  questão embutida na frase " estou velha para fazer isto ou mudar algo", estou falando do vazio existencial ou como nomeou André Green, A clínica do vazio".

Pacientes com este sentimentos se evidenciam no processo de tratamento psicanalítico por terem um estado mental de desistência e completa desmotivação pela vida, não desejam nada e se acomodam no estado letárgico e monótomo de um viver sem aspirações ou expectativas. Um quadro de depressão sem tristeza, neuroses traumáticas e tóxicas, transtornos alimentares ou abuso de substâncias, violência vincular e somatizações diversas. É um perder sem saber o que de fato perdeu. 

É a sensação de vazio. Uma dor incomensurável, do nada, sem causa aparente, dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que sente. Dor, pesar e desinteresse são características de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível o luto pelo reconhecimento de que o objeto da perda não mais existe, para outros parece que isso é impossível. Por não saberem exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático da melancolia.


Este vazio aparece em qualquer idade. É aquela sensação amarga de ter simplesmente passado pela vida olhando da janela do ônibus os anos irem. Você não precisa estar com 80 anos para sentir isto. Pode ter 15, 20 até 100. A sensação de que a vida não foi vivida é um vazio que se torna tão cheio em nossas vidas que acaba nós atropelando em algum momento da vida.

Os anos passam para todos. A forma como você vive a sua vida que é diferente. Aqui eu te apresento uma pequena diferença. Engana-se quem pensa que isto é viver, mas sim sobreviver. 

Viver é diferente. Viver envolve olhar para dentro de si, para aquele "cômodo " mais escuro da alma e acender os sonhos e projetos esquecidos. Viver é aprender a rir das piadas bobas que seu amigo conta. É tomar coragem e fazer aquele curso que você sempre quis. É aprender a surfar , a tocar um instrumento musical. Viver é tomar coragem para falar para a paquera que a ama. É sair da mesmice do emprego chato. Viver é arriscar, é sonhar , é aprender a se ouvir. E para isto não tem idade.