Em comemoração ao dia nacional da adoção: Considerações psicanalíticas sobre a adoção *

Se a base saudável de nosso psiquismo vem de nossa infância e se situa mais especificamente na mãe suficientemente boa, segundo Donald Winnicott, como devemos analisar uma pessoa que foi inicialmente abandonada por sua progenitora? Qual a possibilidade de reparação para este abandono inicial? A mulher que adota pode vir a ser esta mãe boa o suficiente? Portanto, como se falar em adoção a partir de teorias psicanalíticas?
    
Entregar uma criança para adoção pressupõe mil justificativas, mas o que podemos perceber como mais comuns são:
1) Esta criança não era desejada;
2) Essa mãe não tinha condições psíquicas de lidar com um filho; 
3) Situações sócio-econômicas levaram a tal decisão. 
    
Portanto, nem sempre a criança foi totalmente rejeitada, mas sim a necessidade de criá-la é que não pode ser atendida. Através dos estudos do módulo de Dinâmicas Familiares pretendo achar respostas para as indagações iniciais.
    
Winnicott descreve o desenvolvimento psíquico através de três etapas fundamentais: a integração, a personalização e percepção da realidade. Para passar por elas, e chegar ao estágio de perceber o próprio self, é de suma importância que o desenvolvimento psíquico da criança seja saudável. Para que isso aconteça, o que há de mais importante é a presença de uma mãe suficientemente boa. 
    
O que significa ser uma mãe boa o suficiente? É aquela que está presente, sustentando as transformações deste bebê. Todos os dias esta mãe está ali cuidando, dando amor e suprindo as necessidades básicas deste pequeno ser em formação. 
    
Não é a perfeição que traz o bom resultado, é a constância de uma relação em equilíbrio e este equilíbrio pressupõe os não acertos também. O bebê só será capaz de adquirir a noção de seu corpo e, posteriormente se ver como indivíduo, se houver a segurança que esta mãe se faz presente. 
    
Mas quem é esta mãe? Só a biológica pode fornecer esse amor? O dito popular “mãe é quem cria e não quem põe no mundo” tem sua razão. Uma mãe adotiva presente diariamente, sustentando os choros do bebê, dando os cuidados essenciais e desenvolvendo uma relação com este bebê também é a mãe suficientemente boa de Winnicott. A rejeição inicial pode e deve vir a ser trabalhada posteriormente - talvez em idade adulta - para que esse indivíduo entenda sua origem. Mas isso não diminui o fato de que houve uma mãe constante e que deu amor para este bebê, além das condições para que ele desenvolvesse seu psiquismo de forma positiva.
    
Alessandra Piolontelli desenvolveu uma pesquisa onde a continuidade pré e pós parto é colocada em evidência. Os fetos têm padrões individuais de desenvolvimento dentro do ventre e muitas destas características e movimentos de um feto puderam ser notados durante o desenvolvimento de uma criança em sua primeira década de vida. Podemos olhar isso, em uma criança de lar adotivo, de duas formas:
1) Esse desenvolvimento é interrompido com a mudança de lar;
2) Esse desenvolvimento é uma prova de que há comportamentos da criança que são anteriores ao cuidado materno pós nascimento.
    
Se há a interrupção, cabe a nova mãe descobrir e aprender quem é esse filho que ela não teve a oportunidade de sentir em seu ventre. Qual é essa transgeracionalidade que foi interrompida? Se há comportamentos intrínsecos ao bebê, há características do desenvolvimento psíquico que ocorrerão independente do fato da mãe suficientemente boa ser ou não biológica. Há uma “re-transgeracionalidade” que também será transmitida para esta criança no novo seio familiar em que ela foi inserida. Ambas as alternativas mostram a possibilidade de uma mãe adotiva superar o trauma de uma rejeição inicial enfrentada por este bebê.
    
Se René Spitz lida com a questão do objeto na relação mãe-bebê e coloca esse objeto de relacionamento como resultado dessa interação, fica mais claro ainda a chance de uma mãe adotiva desenvolver um vínculo com seu bebê de forma construtiva.  É da satisfação desta relação inicial que o bebê poderá tomar conhecimento desta mãe e vir a sorrir e entender o sorriso dela. Assim como Melanie Klein, René mostra que é da relação objetal satisfatória que se dará o desenvolvimento psíquico adequado deste ser.
    
Se analisarmos pelas fases de Margareth Mahler podemos entender que eventuais falhas desta mãe não-biológica podem vir dos momentos iniciais, principalmente a autista e a simbiótica, nas quais eventuais faltas podem levar ao autismo ou esquizofrenia. A partir de um estudo de fases conseguimos concluir também que o momento da adoção desta criança pode ser fundamental para entender o desenvolvimento posterior de sua psique. Essa criança foi adotada recém-nascida? Ficou os primeiros meses de vida em um orfanato? Teve uma mãe biológica no início e depois perdeu? Foi adotada quando já era maior? Cada pergunta remete a análise individual de cada fase que esta criança passou com ou sem uma mãe presente. E isso resultará em formas de desenvolvimento menos ou mais problemáticas. Porque segundo Mahler, “a criança ganha confiança na sua mãe, de que sua mãe a entende, que sua mãe está ali e sempre estará ali”. Isso é a segurança, isso possibilita que a criança não sinta o vazio, o medo da morte.
    
Já Bowlby nos mostra que o “vínculo é uma necessidade psicológica e que os primeiros vínculos vão dar a tônica de todos os outros vínculos do indivíduo até sua sepultura”. A força dessa frase reside em outra afirmação dita por ele de que “os problemas vinculares devem ser investigados no real e não no psiquismo. Nesse real eu encontro respostas às suas perguntas e não no imaginário.” Se levarmos essas afirmações para um lar adotivo podemos compreender que o mais importante para a superação de um primeiro abandono é o vínculo que será estabelecido neste novo lar e eventuais problemas a serem lidados devem ser enfrentados com o que ocorre na vida real e não só em um imaginário de abandono. 
    
Novamente é possível afirmar que uma mãe presente, como amor e cuidados constantes e sendo apoiada por uma família são de fato o que uma criança precisa para o desenvolvimento saudável. E isso independe do fato de ser essa família biológica. 
    
A estrutura familiar se mostra tão importante quando os genes familiares. Lacan explica que “a significação de um indivíduo está em função de uma estrutura e não nele mesmo.” E esta estrutura é o lugar que este filho adquire frente a este pai e a esta mãe. O rompimento de laços afetivos primórdios deixa marcas, mas a qualidade das vivências com uma nova família serão essenciais para a estruturação deste indivíduo.
    
Finalizando com Winnicott - sempre um otimista em relação ao potencial que a criança tem para o desenvolvimento - o ambiente em que uma pessoa será criada é de fundamental importância. Se esse ambiente é com a mãe e família biológica, mas não é adequado, o potencial para desenvolvimento saudável pode vir a fracassar do mesmo jeito e até mais do que com uma família adotiva. Se levarmos em conta que uma pessoa ou um casal que adota uma criança geralmente o faz pela enorme vontade de ter um filho, já vemos um grande ponto positivo na recepção desta criança neste novo lar. 
    
Além de tudo isso, levando em conta que cada indivíduo é singular assim como a sua forma de encarar o mundo e lidar com seu sofrimento e as pessoas reagem de forma única aos eventos psíquicos, podemos dizer que tanto pais adotivos quanto biológicos podem ser ou não ser bem sucedidos em dar o suporte necessário aos seus filhos. Para isso é  essencial proporcionar um ambiente favorável onde haja, principalmente, amor. Ser pai e mãe de fato pressupõe esse amor, essa entrega. E essa doação significa também mostrar a verdade para esta criança e jamais renegar que há uma história dela que ficou para trás, que tomou um novo rumo.

* Texto escrito por Paula de Freitas Marcondes