Além do corpo que adoece

No recém-lançado Psicossoma V, psicanalistas abordam traumas, formas contemporâneas de sofrer e tendência à medicalização dos afetos


A mente se manifesta no corpo – e vice-versa – a cada etapa do desenvolvimento, nos gestos, na sexualidade, no adoecimento e cura, no desejo, no envelhecimento, na morte. Cada momento da existência é delineado pelas particularidades das transformações forjadas na carne e nos ossos. Diante dessa realidade inexorável, o corpo – tantas vezes negado pelo analista atrás do divã – ganha espaço na cena clínica.


Parece impossível não ver o quanto aspectos psíquicos e físicos se engendram e se confundem – contemplando tanto limitações quanto possibilidades. Justamente por serem indissociáveis, torna-se impraticável determinar onde se encerram uns e se iniciam outros. Onde falta o psiquismo, transbordam as impossibilidades de simbolização e somatizações.  Onde falta o contato com o corpo, a vida mental padece. E cabe ao analista acompanhar o paciente nesse percurso onde os caminhos são construídos sem esboço, à medida que se passa por eles. É nessas interfaces que a dor, em suas variadas formas – e por vezes desprovida de sentidos –, ganha contornos, ainda que tênues. É desse universo no qual estão imbricados soma e psique que trata Psicossoma V – Integração, desintegração e limites.

Recém-lançado, o livro com 33 artigos tem como proposta “ampliar as fronteiras da psicopatologia clássica, oferecendo recursos para suplantar impasses da prática médica desencadeados por um olhar excessivamente fragmentados sobre o paciente e seus processos de vida”, escrevem na apresentação da obra os organizadores Rubens Marcelo Volich, Wagner Ranña e Maria Elisa Pessoa Labaki.  No texto de apresentação, afirmam: “No polo neurótico da economia psicossomática ainda é possível encontrar tentativas de integração marcadas por funcionamentos simbólicos e representativos e por melhores possibilidades de elaboração”.

Os mais de 40 profissionais que participam da obra trazem diferentes experiências de atendimento, tanto em clínicas particulares quanto em instituições. Trajetórias e pertencimentos teóricos variados dentro da psicanálise enriquecem o debate sobre as formas contemporâneas de sofrer, a medicalização dos afetos, as mais variadas maneiras de lidar com os traumas, bem como as aceleradas transformações culturais e sociais e suas repercussões sobre o psiquismo. Os artigos, permeados por recortes clínicos, são organizados em 12 grupos temáticos, que guiam e favorecem a leitura. São eles: Integração, desintegração e limites; A função integradora da neurose; O sujeito-corpo; Excessos, violências e desorganização psicossomática; Desafios à integração psicossomática na infância; Adolescência: limites estruturantes e limites desestruturantes; Por uma integração possível no envelhecimento; Família e grupos: dinâmicas psicossomáticas dos vínculos; O diagnóstico em questão: fragmentar ou integrar?; Enquadre terapêutico: dos limites dos dispositivos às situações-limite; A mente do clínico, limites e integração; Saúde pública: uma compreensão psicossomática.

Assim como os quatro livros anteriores, que também levam o título Psicossoma (1996, 1998, 2003 e 2008, todos publicados pela Casa do Psicólogo), o lançamento é resultado do V Simpósio de Psicossomática Psicanalítica, realizado em 2013, em São Paulo. A maior parte dos autores está de alguma maneira vinculada ao curso de especialização em psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, atualmente uma referência na transmissão do pensamento teórico e da prática clínica nessa área.

Nesse sentido, uma das maiores qualidades do livro é oferecer acesso à reflexão tanto para profissionais quanto para estudantes das áreas da saúde, levando em conta a multiplicidade não só de enfoques, mas também de expressão da subjetividade – somática, psíquica, social – que permeiam as maneiras contemporâneas de agir, pensar e sentir.