Quero viver e quero morrer.

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"Sou Valentina Maureira, tenho 14 anos e sofro de fibrose cística. Peço para falar urgente com a presidente, porque estou cansada de viver com essa doença e ela pode me autorizar a tomar uma injeção e dormir para sempre."



Esse apelo foi gravado e postado nas redes sociais por uma jovem chilena. O vídeo se tornou viral . Link


O governo do Chile respondeu que a lei do país não permite que o pedido seja atendido. A presidente, Michelle Bachelet, visitou Valentina. E todos prometeram "apoio". 

A fibrose cística é uma doença genética cujo diagnóstico, 50 anos atrás, era uma condenação à morte. Hoje, graças a cuidados médicos diários e à possibilidade de transplante pulmonar, o prognóstico chega a 40 anos de vida.
Suponho que Valentina, de sua maca de hospital, perguntaria: 40 anos com que qualidade de vida?

Depois da visita de Bachelet, disseminou-se um sentimento de alívio na imprensa mundial: Valentina e suas perspectivas estariam melhorando. Mas de onde veio esse alívio?

1) Preferimos acreditar que o sofrimento do outro seja o efeito de uma falta de amor: dessa forma, podemos imaginar que nossa simpatia e nosso afeto sejam panaceias.

2) Pouco nos importa respeitar a infelicidade ou a vontade de morrer dos outros; o que queremos preservar é nossa (suposta) capacidade de fazer os outros felizes.

3) Quando descobrimos que um outro (sobretudo um próximo) não quer viver mais, nossa primeira preocupação é com nossa impotência: como é possível que nosso amor não seja suficiente para que ele ou ela queira viver? Aceitar a vontade de morrer do próximo seria aceitar o fracasso de nosso amor por ele.

4) Para a Igreja Católica, desde o século 5º (Concílio de Arles), o suicídio é um tremendo pecado contra a vida, que é um presente de Deus.
Mais tarde, outro concílio aumentou a dose e decidiu que os sobreviventes de tentativas de suicídio seriam excomungados.

Cá entre nós, se Deus quisesse que a gente nunca tivesse vontade de morrer, Ele se preocuparia em fazer com que a vida de todos valesse a pena; seria mais eficiente do que excomungar os suicidas.

5) Inventamos que a vontade de morrer ofende a Deus para evitarmos admitir que o suicida não achou que nós fossemos uma boa razão para ele continuar vivendo.

6) Em suma, com a "melhora" de Valentina, podemos voltar a acreditar que o amor basta para dar vontade de viver a quem se sentir amado. Queremos acreditar nisso ainda mais quando se trata de uma criança ou de um adolescente.

Procurando o vídeo de Valentina, esbarrei nos da Exit e da Dignitas, as associações suíças de assistência ao suicídio. Para mim, eles são perturbadores. 

Por quê?

Não estranho o fato de que as pessoas que se suicidam diante da câmera pareçam estar ótimas –algumas até capazes de fazer brincadeiras na hora de tomar seu barbitúrico final. Imagino facilmente a alegria maníaca que a perspectiva da morte iminente pode suscitar em quem sofre além da conta.

Se mal consigo assistir a esses vídeos até o fim é porque, de alguma forma, eu também me sinto responsável, como se tivesse o dever de fazer que essas pessoas, apesar de sua dor, amassem a vida.

Ou seja, como se eu devesse ser, para todas elas, uma razão de viver. É a ampliação da ideia infantil de que nossa presença ao mundo deveria bastar para que nossa mãe fosse totalmente feliz.

Alguém me pergunta: e se alguém se arrepender depois de tomar seu veneno? Tem como voltar?

Não. Mas receio mais o caso inverso. Se, numa doença degenerativa, eu espero demais, posso passar da fase em que ainda conseguiria me matar ou convencer os outros a me ajudarem a morrer.

Contardo Calligaris
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Dra., kd vc? :-(

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Psicanálise por SMS se consolida nos EUA


“Dra., estou mto aflito. Não sei se ela vai sair cmg de novo”, digitou o publicitário Mark Adam enquanto subia as escadas da estação da rua 14, em Nova York. Como seu celular não pega no metrô, assim que surgiram na tela as primeiras barras de sinal ele aproveitou para fazer uma consulta rápida.
Adam, um descendente de poloneses de 29 anos, é um dos mais de 70 mil clientes da Talkspace. Cada um deles paga 25 dólares por semana para ter ao alcance de uma mensagem de celular um analista disponível 24 horas por dia, sete dias por semana. Ou quase isso: “Recomendamos que o paciente só escreva seis dias por semana”, explicou Nicole Amesbury, uma psicóloga de cabelos loiros cortados à la Sarah Jessica Parker em Sex and the City. “É preciso que ele tenha algum tempo de reflexão.”
A Talkspace conseguiu no fim de 2014 um aporte de 3,5 milhões de dólares e conta com uma equipe de mais de 100 psicólogos. A iniciativa coincide com uma crise no mercado da terapia convencional. A Associação Psicanalítica Americana divulgou em fevereiro que a média de clientes que um profissional atende por dia no país é de 2,75 – eram quase dez nas décadas de 50 e 60 e cinco nos anos 90.
A maior parte dos pacientes da Talkspace tem menos de 40 anos, como Adam e três amigos dele adeptos da terapia virtual. Nem todos revelam o nome e sobrenome ao analista. O publicitário prefere ser atendido no anonimato, uma novidade da terapia por SMS. “Eu teria vergonha de, sei lá, ele me procurar no Facebook”, disse Adam, enquanto tomava um café com leite de amêndoas no East Village.
Além de sigilosa, a consulta por mensagem de texto sai mais em conta. “É uma economia de pelo menos 300 dólares por mês se eu comparar com meu antigo analista”, disse ele, que agora gasta mais com barbeiro e unguentos para os pelos faciais ruivos, que tosa a cada quinze dias numa barbearia vintage do Brooklyn.
Adam afirma que ganhou paz de espírito com o novo modelo de consulta. “Se bem que agora tenho mais uma razão para ficar ansioso quando estou sem bateria ou sem sinal.” E saúde mental, para ele, é uma prioridade de vida, junto com “encontrar uma namorada” e “parar de me importar com o que as pessoas pensam de mim”.
O publicitário preferiu não mostrar a resposta que recebeu à mensagem de aflição que mandou ao sair do metrô. Um amigo dele, também usuário do serviço, disse que, ao se queixar das brigas com a namorada, recebeu a orientação de romper com as expectativas dela, para tentar desarmá-la. “Em vez de seguir o roteiro, por que não colocar uma cadeira em cima da mesa ou começar a cantar assim que a briga começar?”, sugeriu o terapeuta. O paciente seguiu o conselho e decidiu imitar o pai, que a namorada adora. “Funcionou na primeira vez, mas na segunda ela me acusou de fugir do assunto com gracinhas.”

OTalkspace oferece aos assinantes um número ilimitado de mensagens de seus psicólogos, mas a resposta pode demorar algumas horas. A espera faz parte do tratamento, conforme explicou Nicole Amesbury.“É um chat dessincronizado, as mensagens ficam lá, paradas por algum tempo, até o profissional ler, pensar sobre as questões e só responder quando tiver condições”, disse a psicóloga, que atende clientes de todos os Estados Unidos a partir da sua casa, na Flórida. “Serve também para não alimentar a ansiedade.”
A terapia por celular não alimentaria a nomofobia, uma das aflições dos novos tempos? A síndrome – ainda não descrita academicamente, mas já tratada em consultórios – consiste no medo de ficar sem celular (o nome vem das primeiras sílabas de no mobile). Além da ansiedade extrema provocada pela falta de acesso ao aparelho, os sintomas incluem ouvir umringtone inexistente e sentir uma vibração no bolso vazio. Nicole ponderou que a dependência do celular não é exatamente como o vício em drogas ou em jogo. “Ela pode ser atenuada e não exige que a pessoa rompa com o uso do aparelho para se livrar da compulsão. É possível, sim, trabalhar essa questão por mensagens.”
Nem todos os colegas de Nicole concordam com essa visão. “É difícil para o profissional estabelecer o ritmo que a conversa terá apenas por mensagens, especialmente se forem dezenas de pacientes ao mesmo tempo”, disse Edward Nersessian, do Instituto Psicanalítico de Nova York (a Talkspace não revelou quantos pacientes são designados para cada profissional).
Nersessian, uma versão de terno e gravata de Mahatma Gandhi, criticou também os anúncios da empresa segundo os quais a troca de mensagens equivale a uma conversa “com um amigo próximo”. “Não pode ser essa a lógica”, protestou. “É preciso ter um horário marcado e saber o que você vai priorizar no diálogo com o psicanalista.”
Outro risco da terapia por mensagem de texto é a perda da comunicação não verbal entre paciente e terapeuta. “As letras podem ter menos nuances que a voz ou um encontro pessoal”, ressaltou o psicólogo Albert Mehrabian, que pesquisa o tema na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. “A entonação conta muito no diálogo. E a confiança também. É preciso estabelecer uma relação entre duas pessoas para que haja abertura, por mais que essa relação seja impessoal e não deva ser confundida com amizade. Tenho dúvidas se um sistema de mensagens consegue dar conta disso.”
Uma das maneiras que a Talkspace encontrou para combater as críticas por ter montado uma linha fordista de atendimento psicológico foi bolar serviços personalizados. Há dois meses, a empresa passou a oferecer atendimento pelo Skype, a 29 dólares por sessão de meia hora. Se depender de clientes como Mark Adam, a modalidade não vai pegar. “Eu teria de esperar o meu dia chegar para falar o que sinto”, protestou. “Não funciona mais assim, eu quero compartilhar as coisas na hora.”
Link do Talkspace : Veja aqui
Fonte: Revista Piauí
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A Importância dos Sonhos para a Psicanálise

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“O sonho é o fiel guardião da nossa saúde psíquica, da nossa alegria de viver, uma vez que a vida não passa de uma contínua procura do prazer, contrariada pela realidade”. (Teoria do Princípio do Prazer). 

As descobertas de Freud, de que os sonhos têm um conteúdo psicológico fundamental, revolucionaram o estudo da mente. Antes, os sonhos eram tidos como meros efeitos de um trabalho desconexo, provocados por estímulos fisiológicos. Os conhecimentos desenvolvidos por Freud trouxeram os sonhos para o campo da Psicologia e demonstraram que estes são tão somente a realização de desejos, disfarçados ou não, satisfeitos em pleno campo psíquico.
“O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente”. (FREUD, 1898 e1899). Antes de Freud, os sonhos eram considerados apenas símbolos, analisados como se fossem manifestações sobrenaturais. Quando Freud escreveu, então a sua obra-prima - “A Interpretação dos Sonhos”, e a partir da análise dos sonhos, mostrou que a essência dos sonhos é a realização de um desejo infantil reprimido e a partir daí elaborou bases do método psicanalítico. Por meio dessa análise, mostrou a existência do inconsciente e transformou algo que era tido pela consciência como o “limbo dos pensamentos”, no caso dos sonhos, em um forte instrumento revelador da personalidade humana. Constatou que os sonhos mostram uma óbvia preferência pelas impressões dos dias anteriores, ou seja, das mais primitivas da nossa infância, e fazem surgir detalhes desse período de nossa vida, que acreditávamos ter caído no esquecimento.
Para que aconteça a interpretação de um sonho é importante que não procuremos entendê-lo em sua totalidade em um primeiro momento, pois como é formado no inconsciente, existem fragmentos da realidade, logo vai parecer no primeiro momento, muito confuso. Ele deve ser dividido em partes, de acordo com o contexto vivido e assim vai sendo decifrado lentamente, sem adotar um critério cartesiano, pois o mesmo conteúdo pode guardar sentido diferente, variando de pessoa para pessoa ou situações diferentes.
O sonho é considerado o fenômeno da vida psíquica pelo qual os processos do inconsciente são revelados de uma forma clara e acessível ao estudo. Para Freud, o sonho é produto da atividade do inconsciente e sempre tem sentido intencional, ou seja, a realização, ou não, de um desejo reprimido. Assim eles vão revelando a natureza do homem e são meios os quais podemos ter acesso ao conhecimento do interior oculto da mente.
Segundo Freud (A interpretação dos sonhos, p. ),existem quatro tipos de fontes de sonho: 1 - Excitação sensorial externa (objetivas, onde todo ruído indistintamente percebido provoca imagens oníricas correspondentes); 2 - Excitações sensoriais internas (subjetivas) dos órgãos dos sentidos; 3 - Estímulos somáticos internos (orgânicos) e 4 - Fontes psíquicas de estimulação: material importante para chegar ao inconsciente, muito necessário para o tratamento psicanalítico.
São diversas as causas para o esquecimento dos sonhos, geralmente esquecemos, e temos dificuldade de lembrar o que nos parece desordenado e confuso, não damos muita importância aos nossos sonhos, daí a facilidade de esquecimento.
Embora uma boa parte dos sonhos deva pertencer a um evento mental corrente, esse não é suficiente para produzi-lo, ele só se forma quando esse evento recente entra em contato com um impulso passado, quase sempre um desejo infantil. O que aparece na consciência durante o sono e que quando acordamos chamamos de sonho é o resultado de uma atividade mental inconsciente durante um processo fisiológico que interfere com o próprio sonho, que ao invés de acordar a pessoa sonha.
Nas crianças, os sonhos são frequentemente pura realização de desejos e são desinteressantes comparados aos adultos, pois não levantam problemas para serem solucionados, contudo são importantes para provar que representam realizações de desejos.
Existem sonhos que têm como tema central a frustração de um desejo ou algo claramente indesejado, esses sonhos podem ser elaborados quando um paciente se encontra em um estado de resistência ao analista ou está relacionado a um componente masoquista na constituição sexual de muitas pessoas, pois os sonhos desprazeirosos são realizações de desejos, pois satisfazem suas inclinações masoquistas. Já os sonhos de angústias se originam da vida sexual e corresponde à libido que se desviou de sua finalidade e não encontrou aplicação, ou seja, um desejo recalcado encontrou um meio de fugir à censura. 
Já o sonho recorrente é quando o sujeito teve, pela primeira vez, o sonho na infância e depois ele reaparece constantemente, de tempos em tempos, nos sonos adultos. Os que ocorrem com situações de morte, de parentes queridos encontramos a situação extremamente incomum de um pensamento onírico formado por um desejo recalcado, no caso da morte, que foge inteiramente à censura e passa para o sonho sem modificações.
Os sonhos, em sentido teórico, possuem três entidades distintas: o sonho manifesto, os pensamentos oníricos latentes e o funcionamento do sonho. Tudo que o paciente recorda e relata como sonho, sonho manifesto, é uma mensagem que exige decifração. As ideias e os sentimentos, subjacentes ao sonho, muitos pertencentes ao presente, outros do passado, alguns pré-conscientes outros conscientes, é o chamado conteúdo latente. Já os pensamentos latentes dão origem ao sonho manifesto.
Entretanto,o sonho pode tornar-se um veículo de oposição à análise. O analista não deve se sentir perdido quando o sonho for relatado tardiamente, para que possa ser abordada na sessão, sua transferência positiva ou negativa, pode converter-se em uma fonte de resistência obstinada. Quanto mais o paciente aprende da prática da interpretação dos sonhos, mais obscuros seus sonhos posteriores vão se tornando. As pessoas que não sonham quando analisadas apresentam recalques profundos, ou até possuem problemas estruturais graves, são psicóticas, daí serem de difícil análise.
Com isto, podemos afirmar que o sonho é um meio pelo qual a inconsciente procura alertar a consciência para o que ela não percebe ou não quer aceitar e tenta equilibrar a psique.
Caso pergunte-se se é possível interpretar todos os sonhos, a resposta deve ser negativa. Não se deve esquecer que, na interpretação de um sonho, têm-se como oponentes as forças psíquicas que foram responsáveis por sua distorção.


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Direto do forno: APLICATIVO "Eu, Psicólogo"

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Um encontro com Lacan

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Jacques-Marie Émile Lacan, 

Formado em Medicina,Lacan passou da neurologia à psiquiatria, tendo sido aluno de Gatian de Clérambault. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo e a partir de 1951, afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado, propõe um retorno a Freud. Para isso, utiliza-se da linguística de Saussure (e posteriormente de Jakobson e Benveniste) e da antropologia estrutural de Lévi-Strauss, tornando-se importante figura do Estruturalismo. Posteriormente encaminha-se para a Lógica e para a Topologia. Seu ensino é primordialmente oral, dando-se através de seminários e conferências. Em 1966 foi publicada uma coletânea de 34 artigos e conferências, os Écrits (Escritos). A partir de 1973 inicia-se a publicação de seus 26 seminários, sob o título Le Séminaire (O Seminário), sob a direção de seu genro, Jacques-Alain Miller.

Esse filme , mostra sua vida cotidiana através de relatos de seus pacientes, alunos, amigos próximos e família. Nascido na virada do século XX, no seio de uma família burguesa católica, Lacan tinha um conhecimento enciclopédico e treinado como psiquiatra. Ele era amigo de Picasso, Lévi-Strauss e Sartre. Mas, apesar de ser um brilhante psicanalista e marcante na teoria e na prática, seus próprios colegas o condenavam, como se ele fosse o demônio. O diretor Gérard Miller ainda estava no colégio quando conheceu Lacan pela primeira vez. Aos vinte anos, seu irmão mais velho, Jacques-Alain Miller, tornou-se um dos alunos mais leais de Lacan. Poucos anos depois, Jacques-Alain casou com sua filha, Judith. Depois de quarenta e cinco anos, Gerárd Miller ainda tem os mesmos sentimentos por Lacan: "Ele era um homem absolutamente incrível. Eu fiz esse filme para que o maior número de pessoas possa saber mais sobre ele". Hoje, Lacan é considerado o mais moderno, estimulante e até mesmo o mais controverso dos psicanalistas. Ao assistir ao documentário, os espectadores verão por eles mesmos que Lacan mereceu completamente a sua reputação. 

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O novo abuso de criança

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Desde o fim do século 18 (pouco mais de 200 anos), nossa cultura idealiza a infância. Pretendemos que seja uma época especial e maravilhosa da vida, ou seja, queremos que as crianças mostrem para a gente que elas estão "felizes", despreocupadas, lépidas e faceiras.

As crianças, até então, eram que nem adultos –só que, infelizmente, ainda pequenos e incompletos. Seu maior, se não único, dever não era se divertir, mas crescer quanto mais rápido possível.

Graças a essa mudança cultural, as crianças ganharam cuidados e proteção (por exemplo, elas não puderam mais trabalhar como os aprendizes da era pré-moderna), mas também perderam autonomia e, literalmente, elas se infantilizaram: tornaram-se entediantes, para nós e para elas mesmas.

Nas últimas décadas do século passado, a idealização da infância se tornou mais forte e mais perniciosa do que nunca. Sobretudo a partir dos anos 70, os adultos parecem invejar e imitar as crianças, enquanto as crianças, em vez de sentirem-se encorajadas a crescer, sentem-se instigadas a permanecer para sempre como caricaturas de si mesmas. O que aconteceu?

Só encontro uma explicação razoável: no fim do século passado, em muitos países do mundo ocidental, tornou-se possível e relativamente fácil se divorciar.
Hoje, nos EUA, calcula-se que 50% dos casamentos terminem em divórcio (41% dos primeiros casamentos, e 60% dos segundos). Desses 50% de casais divorciados, 40% têm filhos.

Consequência, a partir dos anos 70, surgiu um tipo de afeto inédito até então: a competição dos pais divorciados pelo amor dos filhos. Fazer a "felicidade" dos filhos, além de ser o "dever" cultural de todos, passou a ser também o jeito para ser "preferido" ao outro cônjuge.

De repente, um dos pais manda os filhos escovar os dentes e passar fio dental, enquanto, na casa do outro, eles comem chocolate antes de dormir. Um dos pais verifica que os filhos tenham feito o dever de casa; o outro os leva de férias no meio do ano escolar porque quer ver os filhos se divertirem.

Enfim, incapazes de manter um projeto comum de educação, rivalizando pelo amor dos filhos, muitos pais divorciados só tentam seduzir os rebentos. Sua mãe cuida de sua alimentação? Vem para cá, que a gente come só porcaria, o dia inteiro. Sua mãe verifica que você leia? Vem para cá, que a gente só passeia no shopping.

A criança que deveria ser educada foi substituída pela criança que deve ser seduzida –à força de promessas, concessões, permissivismo e, em última instância, pela desistência educativa dos pais.

Aparentemente, essa nova figura, a da criança que precisa ser seduzida, ganhou a preferência dos pais, divorciados ou não. Terminou o tempo em que a criança se esforçava para ganhar a apreciação dos adultos, e começou o tempo em que os adultos se esforçam para ganhar o amor das crianças. Sumiu assim o incentivo para a criança crescer, enquanto "voltar a ser criança" parece ser o grande desejo dos adultos de férias.

Nasceu assim um novo tipo de abuso, muito mais grave do que a palmatória do passado: um abuso psíquico, no qual o que os adultos oferecem como perspectiva para a vida de uma criança é a própria infância.

Contardo Calligaris
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Luto como processo natural da condição humana

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A morte é a única certeza de nossas vidas, certeza esta que vem da constatação da finitude da vida. Na cultura Ocidental, a idéia de morte vem acompanhada de grande pesar, medos e angústias, aspectos estes que muitas vezes nos dificultam encará-la como um processo natural da condição humana.

Ao perdemos uma pessoa querida, por exemplo, além da angústia e tristeza que a saudade nos impõe, também nos sentimos ameaçados frente à sua morte dado que tal situação nos aproxima da nossa própria condição humana de vulnerabilidade, também permeada pela morte que fatalmente nos atingirá um dia.

O que é o Luto?

Para Freud (1916) “luto é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade, o ideal de alguém e assim por diante”.
Neste breve estudo vamos nos ater à perda de um ente querido. Ressaltando a princípio que o luto é um processo que se inicia com a perda propriamente dita e se desenrola até o período de sua elaboração – quando o indivíduo enlutado volta-se, novamente, ao mundo externo após ter passado algum período voltando sua energia aos processos internos de elaboração.
Para a Psicanálise, o luto, desde que seja superado, não é considerado uma condição patológica, mesmo que traga consigo mudanças temporárias no estilo de vida de quem o vivencia, tal como a perda de interesse por atividades do cotidiano e pelo convívio social.

Como identificar o processo de enlutamento?

Cada indivíduo reage ao luto de forma distinta, variando de acordo com sua estrutura emocional, vivências e capacidade para lidar com perdas. É fundamental que esse processo de enlutamento seja vivenciado até que ele seja superado para que a dor da perda não fique reprimida e se manifeste posteriormente como algum outro sintoma. Tal processo se dá de forma lenta e gradual com período de duração variável para cada pessoa.
O processo de enlutamento é, normalmente, vivenciado através de um ou mais sintomas abaixo:
  • - Entorpecimento - O indivíduo recentemente enlutado sente-se descrente, em choque, atordoado, desamparado. Isso acontece devido à dificuldade em aceitar a perda.
  • - Negação – Se apresenta como mecanismo de defesa frente a essa situação tão dolorosa.
  • - Anseios - Crises intensas de choro e Dor profunda – A perda pode gerar um grande anseio por reencontrar a pessoa morta. A impossibilidade desse reencontro pode gerar crises intensas de choro e dor profunda, assim como uma preocupação excessiva com seus pertences e objetos que tornem sua lembrança viva.
  • - Culpa – Em muitos casos, esse sentimento é bastante presente. O enlutado pode, ao relembrar alguns eventos vivenciados com a pessoa morta, achar que deveria ter agido de forma diferente nessas ocasiões, ou, até mesmo, que poderia ter evitado sua morte.
  • - Raiva, desespero, falta de prazer e hostilidade - Muitas vezes, o enlutado se volta contra amigos, familiares, médicos, Deus e, quando há o sentimento de culpa, contra si mesmo. Ele pode vir a se afastar dos amigos e do convívio social assim como perder o prazer e interesse no mundo externo, tanto em atividades novas quanto costumeiras.

Como superar o Luto?

A superação do luto se inicia quando o enlutado passa a construir um novo tipo de vínculo com a pessoa morta, fazendo com que a relação seja preservada em outro patamar. Nesses casos, o indivíduo falecido pode passar a ser internalizado, continuando, assim, a viver no mundo interno do enlutado.O sofrimento passa a ser menos intenso, e o sujeito enlutado passa, no geral, a buscar resgatar laços sociais, retomando vínculos antigos e construindo novas relações.
Podem ocorrer recaídas, principalmente em datas que lembrem o indivíduo falecido, como aniversários de nascimento ou de morte. Nesses casos, o apoio e a compreensão, tanto dos amigos quanto dos familiares, ajudarão a fazer do processo de enlutamento algo mais suportável.
Com o tempo, o enlutado volta a se inserir no mundo externo de modo pleno e, normalmente, com sua capacidade de suportar perdas aumentada, amadurecida.

Fonte:  Psicologado
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"Dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários."


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Além do corpo que adoece

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No recém-lançado Psicossoma V, psicanalistas abordam traumas, formas contemporâneas de sofrer e tendência à medicalização dos afetos


A mente se manifesta no corpo – e vice-versa – a cada etapa do desenvolvimento, nos gestos, na sexualidade, no adoecimento e cura, no desejo, no envelhecimento, na morte. Cada momento da existência é delineado pelas particularidades das transformações forjadas na carne e nos ossos. Diante dessa realidade inexorável, o corpo – tantas vezes negado pelo analista atrás do divã – ganha espaço na cena clínica.


Parece impossível não ver o quanto aspectos psíquicos e físicos se engendram e se confundem – contemplando tanto limitações quanto possibilidades. Justamente por serem indissociáveis, torna-se impraticável determinar onde se encerram uns e se iniciam outros. Onde falta o psiquismo, transbordam as impossibilidades de simbolização e somatizações.  Onde falta o contato com o corpo, a vida mental padece. E cabe ao analista acompanhar o paciente nesse percurso onde os caminhos são construídos sem esboço, à medida que se passa por eles. É nessas interfaces que a dor, em suas variadas formas – e por vezes desprovida de sentidos –, ganha contornos, ainda que tênues. É desse universo no qual estão imbricados soma e psique que trata Psicossoma V – Integração, desintegração e limites.

Recém-lançado, o livro com 33 artigos tem como proposta “ampliar as fronteiras da psicopatologia clássica, oferecendo recursos para suplantar impasses da prática médica desencadeados por um olhar excessivamente fragmentados sobre o paciente e seus processos de vida”, escrevem na apresentação da obra os organizadores Rubens Marcelo Volich, Wagner Ranña e Maria Elisa Pessoa Labaki.  No texto de apresentação, afirmam: “No polo neurótico da economia psicossomática ainda é possível encontrar tentativas de integração marcadas por funcionamentos simbólicos e representativos e por melhores possibilidades de elaboração”.

Os mais de 40 profissionais que participam da obra trazem diferentes experiências de atendimento, tanto em clínicas particulares quanto em instituições. Trajetórias e pertencimentos teóricos variados dentro da psicanálise enriquecem o debate sobre as formas contemporâneas de sofrer, a medicalização dos afetos, as mais variadas maneiras de lidar com os traumas, bem como as aceleradas transformações culturais e sociais e suas repercussões sobre o psiquismo. Os artigos, permeados por recortes clínicos, são organizados em 12 grupos temáticos, que guiam e favorecem a leitura. São eles: Integração, desintegração e limites; A função integradora da neurose; O sujeito-corpo; Excessos, violências e desorganização psicossomática; Desafios à integração psicossomática na infância; Adolescência: limites estruturantes e limites desestruturantes; Por uma integração possível no envelhecimento; Família e grupos: dinâmicas psicossomáticas dos vínculos; O diagnóstico em questão: fragmentar ou integrar?; Enquadre terapêutico: dos limites dos dispositivos às situações-limite; A mente do clínico, limites e integração; Saúde pública: uma compreensão psicossomática.

Assim como os quatro livros anteriores, que também levam o título Psicossoma (1996, 1998, 2003 e 2008, todos publicados pela Casa do Psicólogo), o lançamento é resultado do V Simpósio de Psicossomática Psicanalítica, realizado em 2013, em São Paulo. A maior parte dos autores está de alguma maneira vinculada ao curso de especialização em psicossomática psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, atualmente uma referência na transmissão do pensamento teórico e da prática clínica nessa área.

Nesse sentido, uma das maiores qualidades do livro é oferecer acesso à reflexão tanto para profissionais quanto para estudantes das áreas da saúde, levando em conta a multiplicidade não só de enfoques, mas também de expressão da subjetividade – somática, psíquica, social – que permeiam as maneiras contemporâneas de agir, pensar e sentir.
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O que os outros esperam de mim?

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Tentamos nos encaixar em grupos desde a infância, mostra estudo com criança de 2 anos. 


Ser admirado é bom, mas ser aceito pode ser melhor ainda. Talvez por isso, nem todo mundo se sinta à vontade para se expor. E justamente para sentir-se mais parecido com os demais – e, assim, ser incluído sem reservas – muitas vezes quem tem uma habilidade singular prefere se preservar para se encaixar num grupo. Pela primeira vez, um estudo mostra esse comportamento em crianças de 2 anos.
No experimento, conduzido por uma equipe do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária, em Leipzig, Alemanha, e publicado no periódico científico Psychological Science, crianças de 24 meses, chimpanzés e orangotangos deviam atirar uma bola em uma caixa dividida em três compartimentos. Um deles resultava em recompensa: chocolate para os humanos e amendoim para os macacos. Depois que os participantes descobriram como obter a guloseima, assistiram a pares inexperientes realizando a mesma atividade, mas que não recebiam nenhum ganho. Então, os papéis foram invertidos. Dessa vez, os voluntários eram observados pelos outros. Em mais de metade do tempo, as crianças imitaram o comportamento anterior dos colegas novatos e jogaram a bola para dentro das seções que não resultavam no chocolate. Os macacos, por outro lado, insistiam no comportamento que gerava recompensa. Os humanos não esqueceram a resposta correta – quando ninguém os observava, eram muito menos propensos a abandonar a escolha que garantia o doce.
Os resultados sugerem que o desejo humano de agir de acordo com as expectativas é inato ou pelo menos se desenvolve bem cedo. Segundo os autores, esse impulso evoluiu mais fortemente em nós do que nos macacos. A harmonia grupal foi de extrema importância no crescimento de comunidades de hominídeos, que dependem da troca cultural de informações. “Gostamos de quem se parece conosco; a sensação de similaridade favorece o sentimento de pertencimento”, afirma o psicólogo Daniel Haun, autor do estudo. É claro que agir de acordo com o que esperam nem sempre é a melhor opção nem é regra. Muitos preferem liderar ou se rebelar. “No entanto, quando não sabemos muito sobre um grupo, guiar-se pelo comportamento da maioria costuma ser uma boa escolha inicial”, diz Haun.

Fonte: Bret Stetka ( Scientific American)
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Para educar um filho.

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Era uma sessão de terapia
-"Não tenho tempo para educar a minha filha", ela disse. 
Um psicanalista ortodoxo tomaria essa deixa como um caminho para a exploração do inconsciente da cliente. Ali estava um fio solto no tecido da ansiedade materna. Era só puxar um fio... Culpa. Ansiedade e culpa nos levariam para os sinistros subterrâneos da alma. Mas eu nunca fui ortodoxo. Sempre caminhei ao contrário na religião, na psicanálise, na universidade, na política, o que me tem valido não poucas complicações. O fato é que eu tenho um lado bruto, igual àquele do Analista de Bagé. Não puxei o fio solto dela. Ofereci-lhe meu próprio fio. 
-"Eu nunca eduquei meus filhos...", eu disse.

Ela fez uma pausa perplexa. Deve ter pensado: "Mas que psicanalista é esse que não educa os seus filhos?". 
-"Nunca educou seus filhos?", perguntou. 
Respondi:
- "Não, nunca. Eu só vivi com eles". 
Essa memória antiga saiu da sombra quando uma jornalista, que preparava um artigo dirigido aos pais, me perguntou:
- "Que conselho o senhor daria aos pais?".
 Respondi: 
-"Nenhum. Não dou conselhos. Apenas diria: a infância é muito curta.
Muito mais cedo do que se imagina os filhos crescerão e baterão as asas. Já não nos darão ouvidos. Já não serão nossos. No curto tempo da infância há apenas uma coisa a ser feita: viver com eles, viver gostoso com eles. Sem currículo. A vida é o currículo. Vivendo juntos, pais e filhos aprendem.
A coisa mais importante a ser aprendida nada tem a ver com informações. Conheço pessoas bem informadas que são idiotas perfeitos. O que se ensina é o espaço manso e curioso que é criado pela relação lúdica entre pais e filhos". Ensina-se um mundo!
 Vi, numa manhã de sábado, num parquinho, uma cena triste: um pai levara o filho para brincar. Com a mão esquerda empurrava o balanço. Com a mão direita segurava o jornal que estava lendo... Em poucos anos, sua mão esquerda estará vazia. Em compensação, ele terá duas mãos para segurar o jornal.

RUBEM ALVES

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Os benefícios da solidão *

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Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Não é novidade pra ninguém que não vivemos sozinhos, nós dependemos da interação com nossos semelhantes pra nos constituirmos, nos vermos, a psicologia preconiza isso, que nós existimos, nos conhecemos através do olhar do outro.
Atualmente as pessoas não têm muito tempo para si mesmas, devido a sua vida corrida e com muitas coisas para serem realizadas em curto prazo, o que leva ao grande número de tratamento psicológico no mundo todo. Antigamente ir ao psicólogo era coisa de louco e de pessoas desajustadas socialmente, hoje é uma questão de saúde, tanto que os atendimentos vêm sendo realizados para pessoas que querem melhorar suas vidas, querem se autoconhecer, em poucas palavras: pessoas procuram psicoterapia para serem felizes!
No entanto é interessante termos em mente que momentos de solidão são necessários e positivos em algumas ocasiões porque são nesses momentos que entramos em contato com nossos desejos internos, nossos conflitos e ensejos mais ocultos que ao passarem por uma reflexão trazem compreensão e benefícios a nossa saúde psíquica e ainda vão além porque a medicina já vem mencionando vantagens orgânicas além das psicológicas como, por exemplo: redução da pressão arterial, diminuição dos batimentos cardíacos e da respiração, neutralização do estresse, fortalecimento do sistema imunológico.
Então entendemos cada vez mais as influências benéficas de reservarmos a nós mesmos momentos de silêncio e contato somente conosco para ouvir os desejos que clamam por serem realizados e os conflitos internos que estão sujeitos a soluções que só dependem de nós.
É importante ressaltar que a solidão que digo neste texto é um momento em que necessitamos estarmos sozinhos, isto é, refletir e entrar em contato com nós mesmos.
Porém, quando existe a necessidade extrema de ficar só, é um indicador de que algo não está indo bem. Quando o individuo prefere ficar sozinho o tempo todo ao invés de interagir socialmente, se irrita com as atitudes das pessoas, ou simplesmente possui fobia de frequentar ambientes sociais é importante procurar um psicólogo para avaliar o que está causando estes sintomas e assim sugerir um tratamento adequado.
Bruno Ricardo Pereira Almeida*

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Como a falta de regras influencia o comportamento humano.

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O "Senhor das moscas" é um livro escrito por William Golding, vencedor do Prêmio Nobel em 1983. Foi adaptado para o cinema em 1963 por Peter Brook. É um dos mais expressivos estudos da natureza humana, contendo importantes reflexões sobre a civilização e o seu papel na formação do ser humano.

A história, muito conhecida, é sobre um grupo de garotos que, após um acidente aéreo, se vêem sozinhos em uma ilha deserta no Pacífico, sem a presença de um adulto. Embora a premissa pareça simples, o filme faz uma análise profunda do caráter humano e da relação entre o homem e sociedade.

No início a alegria é a nota dominante. Não há aulas, não há adulto,  só há férias! Como se trata de uma ilha tropical sentem-se no paraíso. No entanto, é preciso lutar pela sobrevivência para conseguir alimentos, para se protegerem das condições climáticas e para avisar os possíveis socorristas de que estão vivos… Dividem-se tarefas, estabelecem-se objetivos, mas nem todos os elementos do grupo possuem a mesma motivação.  Alguns não estão dispostos a aceitar as regras do jogo, mesmo que o que esteja em causa seja a sobrevivência.

A diferença de cada um em encarar essa busca pela sobrevivência é a causa de sérios conflitos e divisões. O mais interessante na história, é observar como cada um reage em um ambiente onde não há as regras e normas da civilização, nem adultos para estabelecerem essas normas. Num ambiente assim, em meio a uma selva cheia de mistérios e perigos, é muito fácil a força instintiva vir à tona. Com isso, o comportamento civilizado e baseado na razão do homem é tomado pelo instinto selvagem e pela “lei do mais forte”.

"O Senhor das Moscas", mostra os conflitos dentro da própria "psiqué" humana.  Vale a pena assistir o filme, pois ele relata como que a falta de regras dentro de uma sociedade faz com que o ser humano se  se rendam aos mais baixos sentimentos humanos e se transformaram em uma espécie de selvagens, praticando violências e assassinatos. E as crianças não estão isentas disto pois o filme retrata  que o ambiente e a falta de controle adulto criaram nelas uma espécie de histeria coletiva, de voluntarismo para o brutal e o instintivo.

Mas você pode falar que isto acontece apenas na ficção. Mas quem não se lembra do experimento realizado pela Universidade de Stanfort em 1971, por vários pesquisadores liderados por Philip Zimbardo ?

Vinte quatro estudantes universitários participaram como voluntários assumindo papéis de guardas e prisioneiros numa área localizada no subsolo do departamento de Psicologia da universidade, simulando uma prisão. Essa experiência foi considerada um marco no estudo psicológico das relações humanas.  O objetivo de Zimbardo era constatar “como indivíduos se adaptam a situações em que estão relativamente impotentes”.

Não foi dada formação específica aos guardas para desempenharem o seu papel. Tinham liberdade, dentro de certos limites, para fazer o que pensassem que fosse necessário para manter a lei e a ordem na prisão e para assegurar o respeito dos reclusos. Os guardas elaboraram as suas próprias regras, que implementaram sob a supervisão do Director David Jaffe, um estudante de licenciatura da Universidade de Stanford.  A princípio, os alunos que iam fazer os prisioneiros só sabiam que seriam “presos”.

O resultado?  O experimento foi encerrado cinco dias após ter começado devido a tamanha brutalidade que os "falsos policiais" começaram a tratar os "falsos prisioneiros", mostrando que no final, onde cada um pode fazer o que quer, nos resta apenas a ética e a moral.

O relato completo do experimento você encontra aqui:  http://www.prisonexp.org/portugues/

Fica para nós, psicólogos, os seguintes tópicos de discussão:
1. A capacidade de liderança de cada individuo.
2. Todos nós temos a capacidade de motivar as pessoas, seja para o bem ou para o mal.
3. Como funcionam as relações humanas dentro de um grupo.
4. Um conjunto mínimo de regras torna mais eficaz o trabalho de todos.
5. A covardia em aceitar falsas propostas, só para não se ficar isolado.
6. A importância de manter a estratégia correta, apesar de impopular.

7. Ceder no essencial uma vez, é ceder para sempre.

O filme completo " O senhor das moscas", você encontra aqui: " O senhor das moscas"


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Pelo prisma da ansiedade

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Esse sentimento nos faz priorizar as informações negativas e examiná-las de forma detalhada


Não é preciso ter depressão para acordarmos numa manhã qualquer e, sem motivo específico, nos sentirmos sem esperança no futuro e incapazes de lembrar eventos gratificantes. Uma simples falta de ânimo já é o suficiente para acionar uma espécie de filtro que faz nossa mente captar e recordar apenas informações negativas. É dessa forma que a ansiedade atua: direcionando a atenção para estímulos específicos (em geral negativos). 

Para compreender se ela é um problema, é preciso observar como se manifesta. Há diferença entre ficar ansioso diante de uma situação que representa ameaça real e ter esse sentimento como um traço de personalidade. No primeiro caso, ela é normal e saudável, pois cumpre uma função adaptativa essencial para a existência. A ansiedade nos incita a focar toda atenção naquilo que nos preocupa em um momento específico, mantendo-nos alertas para que possamos nos prevenir de consequências que podem ser prejudiciais.

Pessoas com transtorno de ansiedade, no entanto, tendem a se fixar com frequência em informações irrelevantes. Chegam, por exemplo, a observar um mesmo ambiente repetidas vezes, à procura de estímulos ameaçadores que, uma vez localizados, são evitados e controlados com dificuldade. Elas interpretam informações de maneira desfavorável e são mais suscetíveis a pensamentos negativos. Esse comportamento interfere em praticamente todas as áreas de seu cotidiano.

Emoções e respostas

A ansiedade determina o tipo de informações que priorizamos e a forma como as interpretamos. Quando nos sentimos pressionados por alguma situação, a
maioria de nós não é capaz de considerar mais de uma opção nem de acreditar que existem alternativas viáveis. No entanto, nos dias em que estamos felizes e otimistas, confiamos mais em nossas capacidades e a mente fica mais aberta para enxergar diferentes pontos de vista sobre o que nos preocupa. O problema pode ser o mesmo e talvez as opções sempre estejam ao alcance, mas a forma de processar as informações recebidas é sensivelmente diferente.

Essas diferentes maneiras de perceber o mundo são determinadas pelas emoções. De fato, alguns estados afetivos parecem moldar o funcionamento da mente para responder de maneira eficaz às demandas de uma situação. A ansiedade restringe o campo de visão da realidade e nos faz ver o mundo em “modo de ameaça”.

O modo como diferentes emoções acionam maneiras opostas de se processar uma mesma tarefa foi o tema de um de nossos experimentos. Selecionamos três grupos de estudantes para assistir a um vídeo que mostra um homem armado assaltando um banco. Em seguida, cada grupo visualizou, em separado, imagens com conteúdos emocionais diferentes: positivo (esportistas recebendo troféus, paisagens, famílias), negativo (acidentes, pessoas doentes, guerras) ou neutro (móveis, utensílios de cozinha). Após serem expostos a esses estímulos, os estudantes foram convidados a tentar reconhecer, entre fotos de vários homens, o rosto criminoso do vídeo.

Desempenhos diferentes

Os resultados mostraram que o grupo que havia visualizado as imagens com conteúdo positivo realizou o teste de forma mais eficiente. Todos os participantes do estudo haviam assistido ao vídeo do assalto e nenhum fora previamente avisado do que teria de fazer, mas os estímulos recebidos por cada grupo favoreceram ou complicaram a forma como a tarefa foi realizada.

A explicação dos resultados obtidos é simples, se considerarmos que o reconhecimento de um rosto requer um estilo de processamento global: nossa atenção apreende desde aspectos gerais, como tamanho ou formato da cabeça, o tipo do cabelo ou a cor dos olhos até algum detalhe que pareça tornar aquele rosto inconfundível, mas que de forma isolada não seria determinante. Os estímulos positivos parecem favorecer esse estilo de processamento, que é o mais adequado para realizar tarefas que exigem a observação de aspectos gerais – dessa forma, esse grupo obteve “vantagem” sobre os que receberam estímulos neutros ou apreensivos. 

Após esse experimento, os mesmos voluntários foram convidados a participar de mais um teste. Dessa vez, a tarefa exigia a atenção em detalhes. Orientamos os participantes a encontrar diferenças em jogos do tipo “sete erros”. Os três grupos tiveram a mesma quantidade de tempo para localizar diferenças entre pares de imagens aparentemente iguais. Como a ansiedade incita a observar detalhes e informações aparentemente irrelevantes (que podem converter-se em ameaça), as pessoas do grupo em estado de ansiedade foram mais eficazes nessa tarefa, achando um maior número de diferenças em menos tempo que os outros grupos.

Essa pesquisa mostra como a ansiedade age sobre nossa capacidade de atenção: ela pode nos ajudar a localizar até a mais insignificante ameaça, mas também pode contribuir para que vivamos continuamente apreensivos.



Procure um Psicólogo. Entre em contato pelo  e-mail: oliveiradebora001@gmail.com
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"As pessoas sofrem de amor", diz o psicanalista Joel Birman.

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O psicanalista Joel Birman tem detectado em seu consultório uma “dependência emocional” generalizada. “As pessoas procuram reconhecimento no outro porque sofrem de fome de amor”, diz ele. 

Estamos mais dependentes emocionalmente?

Sim. Esta dependência se manifesta na preocupação constante do indivíduo com que os outros pensam dele e de suas performances. Ele quer saber se agrada, se é amado. A preocupação do sujeito de quantas curtidas recebeu no Facebook ilustra bem isso. As pessoas mais vulneráveis precisam desse reconhecimento mais que as outras, pois sofrem de fome de amor.

Como isso afeta a sociedade?


As pessoas são muito sensíveis em relação a como os outros a acolhem — de forma risonha ou carrancuda, com muitas ou poucas palavras, se são abraçadas ou beijadas. Nesse contexto, cria-se um mal-estar nos laços sociais, pois o não reconhecimento do outro é fonte de desconfiança, perseguição e até mesmo de agressividade.

Como prevenir essa dependência?
Se o que está em jogo na dependência excessiva do sujeito é uma baixa sensação de autoestima, é crucial que na infância e na adolescência os indivíduos tenham a certeza de que são amados pelos pais pelo que são. Isso sem ter que fazer malabarismos para que sejam consideradas pessoas interessantes.


Fonte: clique aqui ó : Fonte
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