segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Pesquisa desenvolve videogame para tratamento de TDAH

Pesquisadores do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o departamento de Medicina Molecular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Duke University, dos Estados Unidos, estão desenvolvendo um jogo cujo objetivo principal é treinar, nos jogadores, o controle inibitório – habilidade cerebral responsável por frear respostas inadequadas a estímulos ambientais, que normalmente é falha nos portadores do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).


De acordo com o autor da pesquisa de doutorado, o neuropsicólogo Thiago Strahler Rivero, o controle inibitório não bem desenvolvido ocasiona problemas como abuso de substâncias, brigas, sexo sem proteção e acidentes; O autor ainda destaca a importância de tal controle principalmente na adolescência, fase característica pela impulsividade exarcebada – e exatamente a adesão e motivação ao tratamento é um dos desafios na clínica, sendo a opção observada pela pesquisa o uso do videogame.

O jogo, batizado de Project Neumann, está dividido em quatro partes. Cada uma delas representa um reino diferente e está diretamente relacionada aos diversos sintomas presentes na falta de controle do impulso. Heróis auxiliam o jogador na luta contra o inimigo principal: o próprio TDAH.

“Os quatro heróis coadjuvantes representam algumas das características mais prevalentes do transtorno: dificuldade de focar a atenção, dificuldade de controlar impulsos motores, dificuldade para ignorar distrações e dificuldade no controle do planejamento, que é a incapacidade de moldar as ações do presente pensando nas consequências futuras”, explicou Rivero.

“Também queremos testar se o jogo pode ser uma ferramenta de avaliação dessas habilidades e, para isso, estamos comparando com as escalas de avaliação consideradas padrão-ouro na literatura. Essas escalas ajudam no diagnóstico e no acompanhamento do tratamento”, conclui o pesquisador. Uma terceira meta dos pesquisadores é a psicoeducação:  A ideia é que, ao jogar, os portadores de TDAH aprendam sobre a doença, adquiram consciência de suas próprias dificuldades e conheçam estratégias para superá-las.

Um sistema que permite gerar gráficos e relatórios de desempenho no fim de cada fase foi desenvolvido para ajudar a monitorar a evolução dos jogadores. No momento, o jogo está na fase de refinamento do game e de validação.


FONTE

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Entenda o que é um Psicólogo e como ele trabalha

Muita gente desconhece o que o Psicólogo de fato faz. Não é raro sua prática ser associada ao misticismo ou seu papel ser confundido com o de um amigo, que ouve e acolhe o sofrimento do outro sem se propor a realizar qualquer intervenção técnica sobre a situação. É comum, também, confundirem-no com o Médico Psiquiatra, profissional cujo trabalho é bastante diferente e, em muitos casos, complementar. Com frequência, observa-se também que muita gente acredita que o Psicólogo atende apenas gente maluca e, por este motivo, não há porque procurá-lo a menos que seja maluco. Pretendemos, aqui, desconstruir estas ideias. 

  

Hoje falaremos um pouco sobre o Psicólogo e sua atuação, desconstruindo alguns mitos e expondo algumas particularidades de sua prática. Para fins didáticos, o texto está organizado em forma de tópicos com perguntas comumente feitas sobre a profissão, e espera-se por meio delas, sanar dúvidas da população sobre o assunto. 

O que é um Psicólogo? 

O Psicólogo é um profissional graduado em Psicologia, curso com duração média de 5 anos, em que se estuda uma série de teorias sobre porque as pessoas se comportam da forma como se comportam e como é possível ajudá-las a superar suas dificuldades e/ou desenvolverem-se de algum modo. 


O um Psicólogo faz? 

A resposta a esta pergunta pode variar de acordo com o campo e método de trabalho do profissional. Na Clínica, o Psicólogo busca ajudar o cliente a compreender as causas de seu sofrimento e encontrar formas de superá-lo. Ele não atende apenas portadores de transtornos psiquiátricos (depressão, esquizofrenia, pânico, entre outros), mas qualquer pessoa que esteja insatisfeita com algum aspecto de sua vida e queira melhorá-lo, como por exemplo, casamento, trabalho, educação dos filhos, entre outros. 


Como o Psicólogo trabalha? 

A resposta a esta pergunta também irá variar de acordo com o campo e método de trabalho do Psicólogo. O Campo de trabalho é o contexto no qual ele atua, contexto este, que pode ser clínico, organizacional, educacional, social/ comunitário, hospitalar/ saúde, esporte, jurídico, trânsito, entre outros. Cada um destes contextos² possui um conjunto de demandas (necessidades) específicas, que exigem do Psicólogo um conjunto de estratégias específicas para atendê-las. Estas estratégias também podem variar conforme seu método de trabalho. 

O Método de trabalho do Psicólogo é baseado em sua teoria de estudo, que pode ser Comportamental, Cognitivista, Psicanalítica, Sistêmica ou outra, dentre as tantas reconhecidas pelo Conselho de Psicologia. Cada uma delas possui uma forma particular de compreender e explicar o comportamento humano, e a partir dessas particularidades, variam também as formas de lidar com os problemas levados à clínica. 

Enquanto alguns psicólogos prezam por um método que estimula mais a escuta diante dos problemas relatados, outros trabalham fundamentados em abordagens que incentivam o diálogo constante e vínculo colaborativo entre terapeuta e cliente. Os Psicólogos Comportamentais, por exemplo, participam ativamente do processo terapêutico fazendo perguntas, comentários e propondo atividades que levem o cliente a compreender melhor seu problema e desenvolver estratégias para superá-lo. A intervenção é feita a partir de uma análise cuidadosa do que o levou a procurar ajuda e de sua vida de forma geral, e via de regra, busca promover a autonomia daquela pessoa, de forma que ela própria seja capaz, no futuro, de identificar fatores desencadeadores de problemas e eliminá-los, evitando recaídas. 


Qual a diferença entre Psicólogo e Psiquiatra? 

A primeira e mais importante diferença encontra-se na formação destes profissionais. Para se denominar Psicólogo é necessário cursar Psicologia e obter registro no Conselho Regional da profissão. Para se denominar Psiquiatra, é necessário cursar Medicina e, posteriormente, residência em Psiquiatria em uma instituição reconhecida pelo órgão regulamentador da categoria. 

A formação do Psiquiatra, em Medicina, é voltada especialmente aos aspectos biológicos do adoecimento e geralmente sua intervenção é medicamentosa. Com base em seus estudos sobre o funcionamento do organismo, o Psiquiatra avalia cuidadosamente a constelação de sintomas apresentados por seu paciente e realiza um Diagnóstico baseado no DSM IV ou CID 10, que são manuais utilizados internacionalmente com o objetivo de nomear conjuntos específicos de sintomas que costumam aparecer juntos. Por exemplo, quando o paciente apresenta rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade, redução na capacidade de experimentar prazer, diminuição na capacidade de concentração, problemas no sono e apetite, entre outros, diz-se que a descrição de suas dificuldades atende aos critérios de Transtorno de Humor com episódios depressivos. 

A partir deste diagnóstico o Psiquiatra prescreve um ou mais fármacos que, em tese, atuam diretamente sobre os fatores fisiológicos associados ao transtorno de seu paciente, estabilizando sua condição orgânica e, consequentemente, sua capacidade de interagir de forma saudável com o mundo. 

A formação do Psicólogo é voltada especialmente aos aspectos interacionais do adoecimento, e sua intervenção geralmente é Psicoeducativa. Enquanto o médico estuda o funcionamento do organismo, o Psicólogo estuda a forma com que este organismo interage com o ambiente e como um afeta o outro, não só no desenvolvimento dos transtornos psicológicos, mas da personalidade em geral. O Psicólogo identifica na história e condições atuais de vida de seu cliente, quais fatores contribuíram para seu adoecimento e quais fatores contribuem para que ele continue apresentando algum tipo de sofrimento psíquico. A partir disso, ajuda a pessoa a desenvolver estratégias para superar aquela dificuldade e prevenir novos problemas no futuro. 

Voltando ao exemplo da depressão, imagine que o cliente está com o humor tão rebaixado que sequer consegue pensar em possibilidade de melhora. O Psiquiatra prescreve um medicamento deve ter como efeito a melhora no estado do humor daquela pessoa, que a partir disso, tem um aumento em sua disposição para agir. O Psicólogo, por sua vez, deve criar condições para que ela compreenda o que a levou a desenvolver a depressão e resolver aqueles problemas, voltando a sentir prazer na vida e a fazer o que gosta. 


Como decidir se procuro um Psiquiatra ou um Psicólogo? 

A maioria dos transtornos psiquiátricos descritos no DSM IV ou no CID 10 é causada por uma complexa interação entre fatores orgânicos e relacionais. Nestes casos, tanto faz procurar primeiro o Psicólogo ou o Psiquiatra, porque via de regra, o tratamento será feito em conjunto pelos dois profissionais e um realizará o encaminhamento para o outro. Quando sua dificuldade não se trata, no entanto, de um transtorno psiquiátrico, basta procurar o Psicólogo. Exemplos de dificuldades que podem não estar diretamente relacionadas a transtornos psiquiátricos: problemas para conseguir emprego; problemas no namoro, casamento ou relações sociais de forma geral; dificuldades para expressar o que se pensa e/ou sente; dificuldades na educação dos filhos; entre outras. No entanto, apenas um profissional qualificado poderá dizer se realmente não existe nenhum transtorno psiquiátrico associado. A dificuldade para expressar o que se pensa ou sente, por exemplo, pode ser parte de um quadro de Fobia Social. 


Como escolher um Psicólogo? 

Esta é, certamente, a pergunta mais difícil a ser respondida. Muitas pessoas reclamam que passaram anos em terapia e ainda assim não resolveram seu problema. O interessante é que quando isso ocorre, a crítica é dirigida à Psicologia como um todo e não ao Psicólogo responsável pelo processo terapêutico frustrado. Talvez isto ocorra porque muitos Psicólogos realmente não conseguem conduzir um processo terapêutico efetivo, que de fato contribua para a melhora do cliente. Mas, ainda assim, insisto que a Psicologia como um todo não deve ser culpada; mas, ao contrário, os critérios para escolha do profissional devem ser melhor definidos. 

É verdade que alguns Psicólogos são pouco comprometidos resultados palpáveis, no sentido em que questionam se alguém que sequer conseguia sair de casa e agora leva uma vida social saudável e moderada realmente melhorou de sua fobia social. Profissionais com este perfil, em geral, preocupam-se mais com o que diz sua teoria de estudo do que com o que diz e/ou sente seu paciente. Mas, felizmente, nem todos são assim. Muitos Psicólogos buscam realmente ajudar seu cliente a encontrar uma solução real para aquilo que o faz sofrer e embasam suas intervenções em um corpo sólido de conhecimento científico. Seguem algumas dicas para ajudar a identificar estes profissionais: 

1 – Ao obter indicação de um Psicólogo, verifique se aquele profissional está cadastrado no Conselho Regional de Psicologia. Para obter esta informação peça o número do registro no CRP deste profissional e acesse o site do Conselho Regional de Psicologia de seu estado. Lá você encontrará um espaço para verificar. Caso não encontre, vale a pena ligar no Conselho e se informar. 

2 – Procure saber se o profissional que irá procurar busca se atualizar por meio de cursos de especialização, extensão, participação em congressos e/ou grupos de estudo e discussão; 

3 – Informe-se com amigos que já passaram por terapia o que eles acharam daquele profissional que os atendeu. Importante notar que não basta o Psicólogo ser “bonzinho”, mas é preciso saber se ele de fato contribuiu para a melhora de seu amigo; 

4 – Informe-se sobre o método de trabalho do psicólogo. Se ele adota uma postura ativa, colaborativa e aberta com seus clientes, é mais provável que ele te ajude de modo mais efetivo. 

5 – O fato de uma pessoa buscar terapia “hoje” não significa que ela não precisará buscar novamente em outro momento. Assim como no caso das doenças médicas, os problemas psicológicos podem reaparecer no futuro ou outros problemas podem surgir, fazendo-se necessário procurar terapia mais uma vez. 

6 – Informe-se com outros profissionais, como Médicos Psiquiatras e Neurologistas, outros Psicólogos, Pedagogos ou outros profissionais da saúde sobre quais Psicólogos eles recomendam; 


segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Antes só do que mal acompanhado ?




Mais de 100 milhões de adultos nos Estados Unidos são solteiros, e a ciência sabe muito pouco sobre eles, diz uma psicóloga especialista no assunto.


Os estudos sobre os solteiros são extremamente falhos, diz Bella DePaulo, autora de Singled Out: How Singles Are Stereotyped, Stigmatized and Ignored, and Still Live Happily Ever After (Discriminados: Como os Solteiros são Estereotipados, Estigmatizados e Ignorados, e Ainda Vivem Felizes para Sempre) (Editora St. Martin’s Griffin, 2007).


A maioria das pesquisas sobre as diferenças entre casados e solteiros está extremamente equivocada. Mais de 100 milhões de adultos nos Estados Unidos são solteiros, e a ciência sabe muito pouco sobre eles, diz uma psicóloga especialista no assunto.

Os estudos sobre os solteiros são extremamente falhos, diz Bella DePaulo, autora de Singled Out: How Singles Are Stereotyped, Stigmatized and Ignored, and Still Live Happily Ever After (Discriminados: Como os Solteiros são Estereotipados, Estigmatizados e Ignorados, e Ainda Vivem Felizes para Sempre) (Editora St. Martin’s Griffin, 2007).


Ela chama a atenção para o fato de que a maioria dos estudos indica que as pessoas casadas são mais felizes e saudáveis. Segundo ela, o problema é comparar dois grupos que podem ter sido muito diferentes antes da decisão de se casar ou não, disse.

E esses estudos colocam as pessoas solteiras em desvantagem ao misturar as que nunca se casaram com as que ficaram solteiras devido ao divórcio e à viuvez.

“Existem muitas falsas crenças sobre as pessoas solteiras e a vida de solteiro”, DePaulo disse ao site “Live Science” antes de uma palestra no início de agosto, durante o encontro anual da Associação Americana de Psicologia, em Denver (EUA). E essas falsas crenças são “às vezes apresentadas como sendo baseadas em pesquisas”.

Solteirice nos EUA

Existem cerca de 107 milhões de pessoas solteiras acima de 18 anos nos Estados Unidos, incluindo 93 milhões que não estão morando com outra pessoa, disse DePaulo.

Cerca de 63% dessas pessoas nunca foram casadas. O grupo de pessoas que nunca se casou está crescendo, independentemente dos segmentos: uma pesquisa do Pew Research Center, por exemplo, revelou que, até 2012, quando os dados foram coletados, cerca de 20% dos adultos acima de 25 anos nunca haviam se casado, comparados com apenas 9% na mesma faixa etária em 1960.

Com o casamento acontecendo cada vez mais tarde, as pessoas têm passado a maior parte do início da vida adulta solteiras. Dados do censo dos EUA mostram que a idade média do primeiro casamento é de 29 anos para os homens e 27 para as mulheres. Em 1960, as mulheres se casavam aos 20 anos, em média, e os homens, aos 23.

O foco cultural, disse DePaulo, ainda está firmemente ancorado em se casar. Tudo, desde comédias românticas até os benefícios do governo, incentiva a caminhada até o altar. Mas as oportunidades econômicas para as mulheres e o maior foco em forjar caminhos individuais rumo à felicidade se traduzem em mais chances de permanecer solteiro por escolha, disse a psicóloga.

“Precisamos abrir espaço para a possibilidade de que, para algumas pessoas, a vida de solteiro é a melhor vida”, acrescentou.

A ciência de ser solteiro

Essa afirmação parece ficar perdida diante da maior parte da literatura de psicologia disponível. O casamento e a coabitação de longo prazo estão associados com benefícios para a saúde, como a sobrevivência depois de uma cirurgia cardíaca e menores níveis de estresse e depressão.

O problema é que os estudos que comparam pessoas casadas e solteiras não podem designar aleatoriamente pessoas com tendência ao casamento ou à solteirice; é totalmente possível que o tipo de pessoa que se casa seja apenas diferente do tipo que não se casa.

Outro problema, segundo DePaulo, é que os estudos normalmente comparam pessoas atualmente casadas com as atualmente solteiras. Mas as solteiras podem ter sido casadas anteriormente, e depois se divorciado ou enviuvado. Um viúvo pode ser muito diferente de alguém divorciado, e ambos muito diferentes daqueles indivíduos que nunca se casaram.

No entanto, as pesquisas misturam todos esses grupos sob o guarda-chuva de “solteiros”.

Alguns estudos que monitoram as mesmas pessoas ao longo do tempo revelam que, quando as pessoas saem da condição de não casadas para o status de casadas ou passam a morar com alguém, nota-se um ligeiro aumento da felicidade — mas esse efeito lua-de-mel acaba rápido.

Essas pessoas também podem apresentar uma melhora da saúde, possivelmente ligada aos benefícios do casamento, como ter direito ao plano de saúde do cônjuge, segundo um estudo publicado em 2012. Esse mesmo estudo revelou, no entanto, que as pessoas solteiras mantêm laços sociais mais diversos, disse DePaulo.

“Parece que são as pessoas solteiras que, de maneiras importantes, estão nos mantendo juntos”, disse. Os solteiros também fazem mais trabalhos voluntários, e os filhos solteiros têm mais probabilidade de cuidar dos pais idosos do que os casados.

DePaulo agora está interessada em estudar os “solteiros de coração”, um grupo de pessoas que estão felizes solteiras e porque querem. A pesquisadora está desenvolvendo uma escala psicológica para identificar pessoas que se sentem dessa forma.

Pesquisas preliminares sugerem que existem alguns benefícios importantes para a solteirice. Por exemplo, pessoas com uma alta pontuação no desejo de passar tempo sozinhas têm menos propensão de ser neuróticas e maior probabilidade de ter uma mente aberta, do que aquelas que preferem estar rodeadas por outras pessoas.

Os solteiros também desenvolvem um portfólio diverso de habilidades — não podem depender de um parceiro para fazer o imposto de renda ou preparar o jantar —, o que lhes pode dar uma sensação de domínio sobre a própria vida, disse de DePaulo.

“O que acho que realmente precisamos é descobrir mais sobre o que é importante para as pessoas solteiras, como é a vida delas, o que valorizam — e isso nos dá um quadro muito mais completo e justo das diferentes maneiras de viver a vida”, disse.


O artigo original foi publicado no Life Science

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Uma história de luta e muita superação : 'Meu corpo está parando': nadadora luta contra avanço de doença rara para competir na Rio 2016

Ao provar que sua coordenação motora piorou, ex-pentacampeã brasileira de triatlo Susana Ribeiro, que sofre de Atrofia de Múltiplos Sistema, mudou de categoria e se classificou: 'Minha vida é isso aqui. É o que me faz não deixar a doença ganhar.


Ao contrário de muitos atletas, que entram nas competições em busca da melhor performance de suas carreiras, a nadadora gaúcha Susana Schnarndorf Ribeiro chega à Paralimpíada do Rio de Janeiro sabendo que está pior do que há dois anos. E continuará sendo assim.

"Atualmente, tenho 40% de capacidade respiratória. Agora diminuiu muito o número de braçadas que eu dou sem respirar. Já cheguei a passar mal, ter queda de pressão. É complicado para uma nadadora não ter ar. Sei que não faço mais o tempo que fazia antes, mas me preparei muito para esses Jogos. Farei o melhor que consigo agora."

Aos 48 anos, Susana convive há 12 com a Atrofia de Múltiplos Sistemas (MSA), uma doença degenerativa rara que limita gradualmente o movimento, a respiração e outras funções autônomas do organismo. "Meu corpo está parando de funcionar comigo viva. Eu tenho que brigar com ele", afirma.

Nessa briga, a natação paralímpica é sua principal arma. Segundo Susana, a prática do esporte de alto rendimento retardou o avanço da doença. Por isso, ela luta ano a ano para continuar competindo. "Eu não penso hoje se vou estar andando ou conseguindo falar no ano que vem. Eu penso que ano que vem tem mundial, tem competição. Literalmente, o esporte me salvou."

Nova classificação

Depois de ser campeã mundial em 2013, Susana passou a fazer tempos piores e foi ficando para trás na sua categoria. "Entre 2014 e 2015 eu tive uma grande piora da doença, era difícil continuar competitiva. Foi um ano muito ruim", relembra.

A natação paralímpica têm mais categorias do que a olímpica, porque os atletas se dividem não apenas pelo tipo de nado, mas também pelo grau de eficiência que a sua limitação os permite ter.
Por ter uma doença que avança com o passar do tempo, Susana precisa ser reavaliada a cada dois anos por profissionais do Comitê Paralímpico Internacional, que decidem se ela pode continuar na categoria em que está. O objetivo é que as provas continuem sendo competitivas e justas.

No início desse ano, um mapeamento detalhado do cérebro da nadadora comprovou que sua coordenação motora tinha piorado. Por causa disso, ela passou da categoria S6 para a S5 - quanto menor o número, maior a dificuldade motora do atleta. O processo não é novidade para Susana. Esta é a quarta vez que ela muda de categoria desde que começou na natação paralímpica.

Na nova posição, conseguiu se classificar para a Rio 2016. "É ruim receber um diagnóstico assim, mas eu fiquei feliz porque tinha como provar minha piora para os classificadores, deu um alívio", diz. "Todo mundo me falava antes da reclassificação que, se não desse certo, a vida continua. Mas a minha vida é isso aqui. É o que me faz não deixar a doença ganhar."

Sonho compartilhado

Quando os primeiros sinais da doença apareceram, em 2005, Susana tinha 37 anos, era pentacampeã brasileira de triatlo e havia acabado de dar à luz a terceira filha, Maila. O fato de já ser atleta fez com que ela se assustasse ao ver o corpo, de repente, falhar. "Eu comecei a sufocar, não conseguia engolir a comida, comecei a perder movimentos das mãos. Eu desmaiava até dormindo."

Depois de diagnósticos que foram de tumor no cérebro a mal de Parkinson, passando pela síndrome do pânico, ela descobriu a MSA. O próximo passo, conta, foi o mais difícil: a decisão de separar-se dos filhos, que foram morar com o pai.

"Minha filha era bebê e eu não conseguia cuidar dela, os outros dois sofriam de me ver daquele jeito. Foi por amor a minha decisão de não fazê-los passar por isso comigo." Foram os filhos também a motivação para voltar ao esporte, depois que ela encontrou atletas da seleção paralímpica brasileira em uma aula de hidroginástica. "Eu não queria que meus filhos me vissem desistir", relembra.

Logo na primeira competição, Susana bateu três recordes brasileiros. No ano seguinte, estava nos Jogos Parapan-americanos. Em pouco tempo, começaria a sonhar em disputar uma Paralimpíada em casa, diante dos filhos e da família. E, agora, se emociona ao contar o que ouviu do mais velho, Kaillani, de 18 anos, no início do ano, quando enfrentaria o desafio da reclassificação: "Agora teu sonho não é mais só teu, é nosso também". 

A nadadora também dá palestras motivacionais sobre a convivência com a doença, mas não gosta de falar em "superação" quando o assunto é paralimpíada.  "O maior legado da paralimpíada vai ser perdermos o rótulo de 'coitadinhos'. Aqui é esporte de alto rendimento, a superação já ficou para trás", afirma. 


Ela treina quase seis horas por dia, seis dias por semana, para enfrentar as mudanças inevitáveis no próprio corpo. Mas deixa claro que não vai parar no Rio.  "Quem tem essa doença normalmente morre depois de sete ou oito anos. Eu vou completar 12 anos e estou aqui ainda. É isso que o esporte faz por mim. Eu vou até Tóquio (em 2020)."



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Você sabia que pode usar o Facebook para ajudar quem pensa em suicídio ou automutilação ?

Se a morte é cercada de tabus, que dirá o suicídio. Não é por não ser falado que ele não esteja acontecendo - no Brasil, uma pessoa se suicida a cada 45 minutos, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). É o oitavo país com o maior número de suicídios.


Por vezes consequência de um sofrimento contínuo, o suicídio deixa não só uma grande tristeza para aqueles que ficam, como também uma profunda sensação de impotência. "O que eu poderia ter feito para evitar?" "E se eu tivesse conversado com ele(a)?"

Muitas vezes palco de despedidas e sinais de alerta deixados por usuários decididos a tirar a própria vida, o Facebook passou a oferecer, desde o dia 14 de Junho,  uma ferramenta para ajudar a prevenir o suicídio e a automutilação.

O objetivo é ajudar tanto quem pensa no suicídio, quanto os amigos e familiares de pessoas nesta situação. A iniciativa é uma parceria da rede social com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que há 54 anos oferece apoio emocional gratuito para pessoas que estejam passando por momentos difíceis, com sigilo total, em todo o país.

Ao identificar posts de amigos, familiares ou conhecidos com ideias suicidas ou de autoflagelação, os usuários poderão denunciar o conteúdo, em sigilo. Com a denúncia, o(a) autor(a) do post irá receber uma notificação quanto a estar se passando por momentos difíceis, com dicas elaboradas por especialistas e indicação dos canais de atendimento do CVV. Tudo em completo sigilo.







Os conteúdos denunciados são analisados com máxima prioridade pela equipe de revisão do Facebook. Assim, as mensagens de apoio chegam o mais rápido possível.

"A agilidade pode significar a diferença entre conseguir ou não ajudar alguém efetivamente", lembra Bruno Magrani, Diretor de Relações Institucionais do Facebook para o Brasil.

Carlos Correia, voluntário do CVV desde 1992, lembra que o alívio é um fator de prevenção. E conversar sobre as emoções pode aliviar quem está sofrendo.  Não é raro que se perceba que um amigo ou familiar está apresentando sinais que levem ao suicídio ou à automutilação, mas fica a dúvida sobre como agir.
"Se não souber o que fazer para ajudar, ligue para o CVV e peça orientação."  "Só não é indicado falar que está sem tempo, ou que a pessoa não tem motivo para estar se sentindo daquela maneira", completa Correia.

Canais gratuitos de ajuda

Além da ferramenta de denúncia, o Facebook possui, em sua Central de Ajuda, informações para lidar com o suicídio ou com a automutilação.  No CVV, mais de 2.000 voluntários fazem o atendimento em 18 estados mais o Distrito Federal, pelo telefone 141 (24 horas), pessoalmente (nos 72 postos de atendimento) ou pelo site www.cvv.org.br, via chat, VoIP (Skype) e e-mail.  Além disso, o serviço possui uma cartilha, chamada Falando Abertamente sobre Suicídio, na qual esclarece algumas dúvidas sobre o ato e suas consequências.


terça-feira, 6 de setembro de 2016

Do que é feita uma vida boa? O que nos mantêm felizes e saudáveis ao longo da vida? Três lições do mais longo estudo sobre felicidade.



O que nos mantêm felizes e saudáveis ao longo da vida? Se você pensa que é fama e dinheiro, você não está sozinho – mas de acordo com o psiquiatra Robert Waldinger, você está equivocado. Como diretor de um estudo de 75 anos sobre desenvolvimento de adultos, Waldinger tem acesso sem precedentes a dados sobre a verdadeira felicidade e satisfação.

Ter dinheiro ou fama comumente é associado à conquista de felicidade, e tais desejos já foram apontados como o objetivo de vida mais importante de norte-americanos nascidos nos anos 80 e 90. A dedicação e esforço no trabalho seriam o caminho para se alcançar mais resultados.

Mas uma pesquisa realizada durante 75 anos nos Estados Unidos mostrou que os ingredientes fundamentais para uma vida saudável e cheia de bem-estar são relações íntimas e de qualidade com a família, com os amigos e com a comunidade.

As conclusões do Estudo do Desenvolvimento Adulto, promovido pela Universidade de Harvard, foram abordadas por seu diretor, o psiquiatra e psicanalista americano Robert Waldinger, em uma conferência no TED 2015 : Assista aqui.

“E se pudéssemos observar uma vida inteira à medida que ela decorre no tempo? E se pudéssemos estudar as pessoas desde a altura em que eram adolescentes até chegarem à velhice para vermos o que mantém as pessoas felizes e saudáveis?”

Durante 75 anos, a pesquisa acompanhou a vida de 724 homens, ano após ano, abordando o trabalho, a vida doméstica e a saúde, além de realizar exames médicos. Cerca de 60% dos pesquisados, a maioria já com 90 anos, ainda estão vivos e participam no estudo. Há cerca de 10 anos, o estudo passou a integrar também as esposas desses homens. O próximo passo, segundo Waldinger, é estudar os mais de 2000 filhos dos homens pesquisados.

A população pesquisada foi dividida em dois grupos desde o começo, em 1938. No primeiro, homens que estudaram em Harvard e que, em sua maioria, lutaram na Segunda Guerra Mundial. Já o segundo era composto por adolescentes dos bairros mais pobres de Boston, vindos de algumas das famílias mais problemáticas e mais desfavorecidas da região.

Os destinos desses homens foram variados: se tornaram operários fabris e advogados, assentadores de tijolos e médicos, e um deles foi presidente dos EUA.  Os 75 anos de acompanhamento mostraram a Waldinger três lições, e nenhuma delas diz respeito a riqueza, fama, ou a trabalhar cada vez mais.

A primeira delas é que as relações sociais são boas para nós, e a solidão mata. “As pessoas que têm mais ligações sociais com a família, com amigos e com a comunidade são mais felizes, fisicamente mais saudáveis e vivem mais tempo do que as pessoas que têm menos relações. A experiência da solidão acaba por ser tóxica. As pessoas que são mais isoladas do que gostariam descobrem que são menos felizes, a sua saúde piora mais depressa na meia idade, o seu funcionamento cerebral diminui mais cedo e vivem menos tempo do que as pessoas que não se sentem sozinhas.”

A segunda lição mostrou que o que importa é a qualidade de nossas relações íntimas. "Viver no meio de conflitos é muito prejudicial para a saúde. Os casamentos altamente conflituosos, por exemplo, sem grande afeição, revelam-se muito maus para a saúde, pior talvez do que um divórcio. Viver no meio de relações boas, calorosas, é protetor.”  O estudo mostrou que o grau de satisfação que os homens sentiam nas suas relações foi decisivo para um envelhecimento mais feliz e saudável. “As pessoas que se sentiam mais satisfeitas com as suas relações, aos 50 anos, foram as mais felizes aos 80 anos.”
“Os nossos homens e mulheres mais felizes disseram, aos 80 anos, que nos dias em que tinham mais dores físicas a sua disposição continuava feliz. Mas as pessoas que tinham relações infelizes, nos dias em que tinham mais dores físicas, elas eram reforçadas pelo sofrimento emocional.”

A terceira e última lição é que as boas relações protegem não só o corpo, como também o cérebro.  “Uma relação bem estabelecida com outra pessoa, aos 80 anos, é protetora. As pessoas que têm relações em que sentem que podem contar com outra pessoa em alturas de necessidade mantêm uma memória mais viva durante mais tempo. As pessoas com relações em que sentem que não podem contar com o outro são as que experimentam um declínio de memória mais precoce. As boas relações não têm que ser sempre fáceis. Alguns dos nossos octogenários podem discutir dia sim, dia não. Mas enquanto sentirem que podem contar um com o outro, quando as coisas aquecem, essas discussões não se fixam na memória.”

Pelas lições aprendidas, a tal felicidade parece fácil, não? Waldinger tem uma resposta para isso: somos seres humanos e lidar com a família e com os amigos é algo complicado, que dura a vida toda.  “O que gostaríamos mesmo é de uma receita rápida, qualquer coisa que possamos arranjar que nos dê uma via boa e a mantenha dessa forma. As relações são conturbadas e complicadas.”


Para se apoiar em boas relações, ele sugere atitudes cotidianas e acessíveis, como substituir a TV por tempo com as pessoas, fazer passeios, animar uma relação amorosa adormecida e falar com algum familiar com quem não se fala há anos. “Essas contendas familiares têm um efeito terrível na pessoa que guarda rancores”.


Quando termina a tristeza e começa a depressão?



Quantas (e repetidas) vezes na vida se falou – e se ouviu – o mandatório “não fica assim, não”? “Assim.”  Assim como? Triste, recolhido (a), solitário (a), apático (a), sem energia, sem perspectiva?

Entre uma recomendação e outra, o “assim” tem se tornado uma sensação intransigente nas nossas vidas: melhor que o “assim” não invada nossa rotina e os dias de quem amamos. Que fique bem longe, que deixe de nos mostrar nossas limitações, que pare de impedir nossa produtividade.

De um lado, temos estatísticas e um urgente problema de saúde pública: em 2015, a depressão afetou mais de 350 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Só no Brasil, foram cinco milhões de pessoas. De outro lado, dúvidas, muitas dúvidas: quando o “assim” diz respeito a uma tristeza e quando devemos suspeitar de depressão? E se o “assim” se torna uma condição mais duradoura do que se imaginava ou se gostaria?
Entre números tão expressivos e o estigma sobre o assunto, fica evidente que a depressão precisa ser pensada com delicadeza e seriedade, muito além de dados estatísticos. Relatórios numéricos, quantidade de diagnósticos e recenseamento da saúde mental nos dizem pouco (ou quase nada) sobre a realidade difícil e particular de cada pessoa que lida com a chamada “doença da alma”.

Pensar a depressão acaba levantando dois questionamentos importantes: (1) quando termina a tristeza e começa um processo depressivo, e (2) o quanto a tristeza é desencorajada em nossa sociedade.

Tristeza ou depressão?

A associação entre tristeza e depressão costuma ser tão imediata que vez ou outra o senso comum afirma. Basta ver alguém mais recolhido para se comentar: “Ele(a) está deprê”.

Em um estado depressivo, estamos falando, quase sempre, das consequências de uma perda, não importa de qual natureza – seja de uma pessoa querida (morte ou separação), de um emprego, de um sonho que se mostra impossível ou de um projeto que se mostra inviável, explica a psicanalista Tatiana Monreal Cano, doutora em Psicologia Clínica pela USP e mestre em Filosofia pela Unicamp.  Nesses casos, o sujeito fica em uma situação na qual nada parece fazer sentido e a possibilidade de elaboração fica bastante comprometida.

Segundo Cano, elaborar a perda é dar um sentido a ela. É o equivalente a encarar um processo de luto, ou seja, poder dizer adeus àquilo que se perdeu e voltar a investir em outra pessoa, projeto ou sonho; em suma, promover novos laços. A dificuldade em elaborar esse luto, de se desvincular dessa perda, é o pano de fundo de um processo depressivo.

“Muitas vezes, o indivíduo que está sofrendo acaba se identificando com a pessoa ou a situação perdida, e passa a se recriminar de um modo muito severo quando, na verdade, essas recriminações e acusações deveriam ser dirigidas para quem ou ao que foi perdido. Do ponto de vista psíquico, é como se parte do sujeito passasse a ocupar o lugar daquele que se foi e a outra parte o acusasse ferozmente por tê-lo deixado.”

Por outro lado, sofrer uma perda não significa, necessariamente, que a pessoa vá passar por uma depressão. A dimensão do sofrimento gerado pelo que se perdeu é o que vai separar uma tristeza de um processo depressivo. Neste último caso, a questão é que nem sempre a pessoa é consciente daquilo que realmente foi perdido e de como isso a afetou nas suas profundezas, pondera a psicanalista.

No processo de luto diante da morte de alguém querido, por exemplo, “é esperado que a pessoa passe por um período de recolhimento, tristeza e reflexão, no qual vários processos internos ocorrem para enfrentar a dor gerada pela perda da pessoa amada”, esclarece Cano.

“Mas se esse período se estender por muito tempo, é provável que estamos diante de um luto impossível de ser elaborado. É o momento em que se instala um outro processo, chamado de melancólico ou depressivo.”

A dificuldade em superar uma perda está relacionada à própria história de cada um, principalmente pela maneira como os pais lhe ajudaram a lidar com as perdas e as frustrações, sempre inevitáveis, em suas vidas.  Por isso, Cano insiste que, mais importante que dar tudo aos filhos, é ajudá-los a criar condições para poder superar o sofrimento frente ao que não se pode ter, encontrando e criando substitutos. “Por exemplo, ao invés de comprar um brinquedo novo, por que não construir um com os materiais que já se tem em casa?”, sugere.

De acordo com a psicanalista, a diferença de uma pessoa para a outra é como ela vai lidar com todas essas infelicidades, perdas e frustrações. Nesse sentido, a criatividade é de extrema importância, pois é por meio dela que o sujeito pode encontrar saídas alternativas: “A capacidade de encontrar e de criar novas soluções é um sinal de saúde psíquica. Do contrário, tem-se a paralisia, ou seja, a dificuldade de enxergar outras vias possíveis de realização.”

De qualquer maneira, Cano ressalta que dimensionar a tristeza é uma questão bastante complexa, principalmente porque cada pessoa tem sua experiência particular da perda, sua capacidade de suportá-la e sua maneira de significá-la no contexto das suas vidas. E, embora a tristeza seja um afeto inerente a todo ser humano, existem momentos em que ela pode se tornar insuportável.

“A partir do momento em que a vida cotidiana passa a ser um peso para a pessoa, ou seja, quando tarefas básicas como o levantar da cama e o preparar o café da manhã passam a ser um fardo, existe aí um sinal de alerta a que é preciso estar atento.”

Em momentos de muita tristeza e de dor muito profunda, o sujeito sente que a própria vida perdeu o sentido; daí a necessidade de descobrir novos sentidos.
“Esse trabalho é o que cada um precisa fazer individualmente; se for o caso, com a ajuda de um profissional, em uma sessão analítica, onde a mente é estimulada a reencontrar o sentido perdido”, afirma a psicanalista.

Buscar ajuda, portanto, pode ser o caminho para lidar com o sofrimento — sobretudo quando ele paralisa, em vez de ser um estímulo para a mudança e possíveis reavaliações.

É importante que essa ajuda venha de um profissional capacitado pois, apesar de os pais, amigos(as) e companheiros(as) se colocarem à disposição, nem sempre eles saberão como lidar com a situação. Além disso, nem sempre aquilo que pôde ter sido bom para uns pode ser para outros. Segundo Cano, a escuta neutra e imparcial do analista é a mais indicada nestes momentos de angústia:

“Mas é bom deixar claro que uma análise ou uma terapia não vão dar uma solução milagrosa, mas sim fornecer as condições para que o próprio paciente encontre seu próprio caminho, o prazer e o sentido perdidos, para que a vida volta a valer a pena ser vivida.”

A tristeza e a solidão também fazem parte da vida

Vistos com maus olhos pela mesma sociedade que cobra a euforia e a felicidade ininterruptas, os momentos de tristeza e de solidão, muitas vezes, são importantes para que o sujeito possa reelaborar e ressignificar as perdas que sofreu ao longo da vida, enfatiza Cano.

“O que é a nossa vida senão uma constante reelaboração? Elaboração do que gente vive e também do que já viveu, do que tem e do que não tem. A atribuição de novos sentidos. Quantas vezes a gente olha e pensa ‘nossa, agora eu entendi aquilo que aconteceu comigo’?.”

Segundo Cano, a solidão e a tristeza podem ser vistas como uma convocação para a ressignificação de um passado eventualmente traumático. É também o momento em que se faz necessário olhar para si mesmo e questionar as escolhas feitas, os projetos, a própria vida.

“Nesse sentido, a solidão e o recolhimento podem ser a ocasião para a busca de novos horizontes, sonhos e projetos, pois não é incomum as pessoas viverem projetos que não são próprios. Daí ser justamente a oportunidade de escolher aqueles que expressem o seu desejo.”

Infelizmente, o sofrimento (e aí incluímos a tristeza) não é nem um pouco bem-vindo atualmente, especialmente em uma realidade em que o desempenho e a produtividade estão alinhados à noção de sucesso. É como se cada frustração fosse vivida como uma derrota, e não como acontecimento natural da vida.

“Muitas vezes os indivíduos são intolerantes com eles mesmos. Eles não se permitem passar por momentos de tristeza e vivem como se tivessem que estar sempre bem, postando selfies nas redes sociais, com caras e bocas”, pondera Cano.

Persona non-grata, o sofrimento é uma certeza em nossas vidas, por mais que teimemos em querer reescrever a vida com linhas exclusivamente felizes, eufóricas e blindadas de qualquer tipo de imprevisto.

“Sempre vai haver algum grau de sofrimento. Se a gente parte do princípio de que o ser humano é imperfeito e incompleto e, justamente por isso, está sempre em busca da perfeição e da completude, a satisfação nunca será plena e eterna. Pelo contrário, só será alcançada em momentos fugazes. Isso significa que sempre haverá uma parcela de frustração para ser enfrentada e elaborada.”

Junto a essa fórmula de sucesso baseada no desempenho e que ignora limitações e impotências, a sociedade capitalista ainda aparece com uma tentadora visão de mundo: a ilusão de que nós sempre vamos conseguir tudo.
“Essa enxurrada de produtos para serem consumidos tem um objetivo: criar a ilusão de que a falta não existe. A publicidade, sabendo que o que move o ser humano é o desejo – desejo de ser amado, de ser perfeito ou querido -, cria a ilusão de que, de posse daquele bem de consumo, vai se estar realizado.”

A psicanalista completa:  “Em outras palavras, a sociedade capitalista não só não oferece meios de o sujeito lidar com a falta como, pelo contrário, dá a ilusão de que se ele tiver x, y, z, ele estará completo e feliz. E isso não é verdade."

O problema é que lidar com a incompletude ou com a falta é basicamente um resumo da vida de todos nós.  “Passamos nossa existência em uma constante busca daquilo que não temos em nós mesmos, mas que supomos existir em algum lugar. Acontece que, se por um lado é isso que nos faz sair da cama todos os dias, ou seja, ter a esperança da realização, por outro lado, podemos nos tornar presas dessa armadilha, acreditando que nunca chegamos aonde supomos que devemos chegar. Por isso, mais do que finalmente alcançar, é preciso sempre sonhar e investir; em suma, desejar.”


Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. 

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